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XP: Ataque ao Irã eleva risco, mas pode trazer efeitos mistos para Brasil e petróleo

Análise da XP sobre as Consequências do Ataque ao Irã

Lara Rizério

Camille Bocanegra

IA InfoMoney

02/03/2026 06h00

Atualizado 9 horas atrás

Em uma transmissão ao vivo do InfoMoney, no último domingo (1), a equipe de pesquisa da XP discutiu os impactos do recente ataque dos Estados Unidos ao Irã, realizado no fim de semana. Esta operação reacende as tensões no Oriente Médio e pode causar volatilidade significativa nos mercados globais, com efeitos diversos no curto e longo prazo, conforme apontam os especialistas.

Participaram da discussão Fernando Ferreira (estrategista-chefe e head do Research da XP), Maria Irene Jordão (estrategista global) e Régis Cardoso (head de Petróleo e Gás).

Impactos Imediatos nos Mercados

Fernando Ferreira destacou que, historicamente, choques geopolíticos frequentemente geram um movimento inicial de aversão ao risco, mas seu impacto tende a ser limitado e de curta duração em horizontes de três a seis meses. Isso se deve ao fato de que, a longo prazo, os lucros das empresas são os principais determinantes do valor das ações.

Contudo, ele mencionou alguns pontos a serem monitorados:

O Irã é um produtor relevante de petróleo, e o estreito de Ormuz concentra cerca de 20% da oferta global e 25% do comércio marítimo de petróleo. Qualquer risco à navegação na região pode impactar significativamente os preços.

Cenário Atual dos Mercados

As bolsas globais já apresentavam um sentimento cauteloso e valuations elevados, o que pode permitir correções mais bruscas em caso de choques. Ferreira observou que um eventual acordo de desnuclearização e mudança de regime no Irã, se resultar em maior estabilidade futura, poderia ser interpretado como positivo para ativos de risco no médio prazo.

No curto prazo, o mercado oscila entre o receio de um conflito e a precificação de um cenário de risco reduzido.

Expectativas para o Mercado Brasileiro

Analistas preveem que as primeiras negociações de dólar e outras moedas na Ásia já refletem a volatilidade esperada para a sessão dessa segunda-feira.

A produção líquida de petróleo, o superávit comercial e as reservas elevadas oferecem alguma estabilidade ao Brasil, mas a aversão ao risco pode pesar sobre o Ibovespa e o câmbio.

Como exemplo, o Bitcoin apresentou uma queda acentuada logo após os ataques, mas se recuperou rapidamente. Algumas bolsas do Oriente Médio abriram em queda de 4% a 5%, mas conseguiram fechar com perdas menores, em torno de 1% a 2%.

Riscos e Oportunidades no Mercado de Petróleo

Régis Cardoso apontou que o conflito no Oriente Médio pode levar o mercado de petróleo a um “sistema caótico”, onde pequenas mudanças na dinâmica política e militar podem resultar em desfechos muito distintos, que vão desde uma rápida saída diplomática até uma escalada regional.

A produção do Irã é de aproximadamente 3,5 milhões de barris por dia, representando cerca de 3,5% da oferta global. Essa oferta pode ser compensada, mas o grande risco está no trânsito pelo estreito de Ormuz.

Uma interrupção prolongada na navegação não pode ser facilmente substituída por outras rotas ou fontes. Se o bloqueio durar apenas alguns dias, os estoques globais podem absorver o choque. No entanto, se a interrupção se estender por semanas, pode haver aumento persistente nos preços e risco de escassez de petróleo e derivados em algumas regiões.

Embora o Brasil seja exportador líquido de petróleo, é importador de derivados, especialmente diesel e GLP (gás de cozinha). Isso significa que o país não está imune a impactos, pois os derivados podem encarecer ou se tornar mais difíceis de encontrar se o fluxo na região continuar comprometido.

Implicações Macroeconômicas

Maria Irene Jordão focou nas consequências macroeconômicas globais, especialmente caso o conflito se prolongue. Um choque duradouro nos preços do petróleo tende a elevar a inflação, especialmente através dos combustíveis.

Nos Estados Unidos, apesar de o país ser praticamente autossuficiente em petróleo, a alta dos preços globais ainda impacta a gasolina e outros derivados. A inflação americana já enfrentava pressões, e um novo choque complicaria ainda mais um potencial ciclo de cortes de juros pelo Federal Reserve em 2026.

O Papel do Ouro em Tempos de Incerteza

Questionados sobre o ouro, Irene e Ferreira destacaram-no como um ativo seguro e um dos principais beneficiários em meio à incerteza geopolítica. O preço do ouro já subiu substancialmente nos últimos 12 meses, e a recomendação da XP é manter uma exposição moderada a esse ativo.

Perspectivas para o Brasil

Sobre os efeitos para o Brasil, Fernando Ferreira mencionou um cenário ambíguo. O petróleo tem um impacto significativo no Ibovespa, e o país, com produção de cerca de 4 milhões de barris por dia, figura entre os 10 maiores produtores do mundo.

Cada aumento de US$ 10 no barril de petróleo melhora a arrecadação fiscal brasileira, mas um aumento prolongado pode pressionar a inflação interna, especialmente se a Petrobras repassar esse aumento aos consumidores.

Fluxos de Investimento e Oportunidades

O Brasil tem sido um dos grandes beneficiários da rotação global para mercados emergentes, com cerca de R$ 40 bilhões já entrando na bolsa brasileira em 2026.

Embora o ambiente global atual possa levar a quedas na bolsa local, a XP acredita que essas quedas representam oportunidades de investimento, especialmente porque a exposição doméstica a ações ainda está abaixo da média histórica.

Considerações Finais

Encerrando a discussão, Ferreira aconselhou os investidores a manterem a calma e a diversificação nas carteiras. Em momentos de estresse, é essencial evitar movimentos extremos e focar em ativos de qualidade a longo prazo.

Ele também lembrou que, em choques geopolíticos, o dólar costuma se valorizar inicialmente, mas o impacto no Brasil pode ser limitado devido aos preços mais altos das commodities, que melhoram a balança comercial.

A equipe da XP conclui que, embora o choque atual aumente a incerteza no curto prazo, ele se insere em uma tendência maior de reprecificação de riscos geopolíticos e mudanças na ordem global. Para os investidores, a recomendação é manter disciplina, diversificação e foco nos fundamentos.


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