Violência no México: BBC visita cidade transformada em zona de guerra por disputa entre facções do tráfico
A violência que assola Culiacán: um retrato do medo
A presidente do México, Claudia Sheinbaum, elogiou as forças especiais que "capturaram" Nemesio Oseguera Cervantes, o narcotraficante mais procurado do país, conhecido como "El Mencho". O traficante foi morto em um tiroteio no Estado de Jalisco no dia 22 de fevereiro.
Entretanto, em Culiacán, no Estado de Sinaloa, a ausência deste líder poderoso pode desencadear um aumento na violência, à medida que facções rivais lutam pelo controle da região.
O paramédico Héctor Torres, de 53 anos, descreve a atmosfera da cidade: "O medo está em toda parte e é constante". Ao responder a um chamado em um tiroteio, Torres encontrou o proprietário de uma garagem morto em seu escritório, enquanto sua esposa chorava sem poder fazer nada.
Nos últimos 18 meses, o cartel de Sinaloa tem enfrentado uma guerra interna, provocada pela traição do filho de um de seus líderes. A prisão de Ismael "El Mayo" Zambada, agora nos Estados Unidos, trouxe caos à região, elevando o número de atendimentos de emergência em mais de 70%.
A escalada da violência atingiu níveis alarmantes, com escolas e hospitais sendo alvos de ataques. Torres comenta que a estrutura familiar do cartel, que antes se unia como uma "família", agora se desintegrou em um conflito mortal.
O comércio de fentanil, que causa um grande número de mortes nos Estados Unidos, torna-se um tema central na discussão sobre a violência. Donald Trump declarou os cartéis como organizações terroristas e ameaçou o México com ações militares diretas.
Os paramédicos, equipados com coletes à prova de balas, trabalham sob constante risco. Torres explica que a insegurança se deve ao fato de não saber se os atacantes ainda estão no local.
A presença militar em Sinaloa é visível, com soldados fazendo barreiras nas estradas. O sequestro de três homens ocorreu simultaneamente ao assassinato do proprietário da garagem, revelando a brutalidade da situação.
Culiacán, apesar de sua prosperidade, é marcada pela violência. Um corpo foi encontrado em frente a um shopping, torturado e deixado como uma mensagem entre facções rivais, simbolizando a guerra em curso.
O repórter Ernesto Martínez, que cobre a violência há 27 anos, observa que os homicídios permanecem em uma média de cinco a seis por dia, mesmo com a presença ostensiva de segurança.
Em uma busca desesperada, Reynalda Pulido e um grupo de mães procuram por seus filhos desaparecidos, muitas vezes enfrentando a solidão da dor. Elas carregam fotos de seus entes queridos e buscam sinais de túmulos improvisados em campos.
O comércio de fentanil continua a prosperar. Um produtor, Román (nome fictício), revela que a produção não foi interrompida e que a demanda dos consumidores garante a continuidade do tráfico.
O governo mexicano afirma estar fazendo progressos na luta contra o tráfico, mas a realidade nas ruas de Culiacán contrasta fortemente com as declarações oficiais.
Antes de retornar à Cidade do México, a equipe de paramédicos atende um tiroteio, onde duas vítimas, pegas no fogo cruzado, são tratadas e levadas a um hospital sob a vigilância do exército. A luta pela sobrevivência continua, e a sensação de urgência é palpável em Culiacán, onde a vida e a morte coexistem em um ciclo de violência interminável.
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