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'Vi pessoas presas dentro de casa pedindo por socorro': os relatos de moradores das cidadas arrasadas pela chuva em Minas Gerais

Relatos de moradores das cidades devastadas pelas chuvas em Minas Gerais

Crédito, Andre Coelho/EPA/Shutterstock

Autor, Iara Diniz - Da BBC News Brasil em São Paulo

24 de fevereiro de 2026 - Atualizado há 16 minutos

A chuva começou a cair no início da noite de segunda-feira (23/2) na Zona da Mata de Minas Gerais. Em poucas horas, a água invadiu casas e comércios, arrastou veículos e causou mortes na região.

Em Juiz de Fora, o volume de precipitação atingiu cerca de 80% da média esperada para todo o mês em apenas sete horas. Em Ubá, choveu aproximadamente 170 mm em cerca de três horas e meia. O rio local atingiu 7,82 metros e transbordou, resultando em inundações em diversos bairros.

Até o momento, ao menos 30 pessoas morreram nas duas cidades e 39 estão desaparecidas, conforme informações do Corpo de Bombeiros.

Lucas Gandra, morador da região da Beira Rio, uma das áreas mais afetadas em Ubá, recebeu o primeiro alerta de enchente pouco depois da meia-noite. Um amigo ligou para avisá-lo que o rio estava prestes a transbordar. Minutos depois, o cenário já era de destruição.

"Às 00h07 a água já estava transbordando e às 00h20 já estava fazendo um estrago enorme. Subiu muito rápido", conta.

Gandra descreve cenas de desespero. "Vi pessoas presas dentro de casa pedindo socorro e a gente não tinha nada o que fazer. Teve uma casa em que eu sinceramente achei que ia ver as pessoas morrendo afogadas."

Ele ressalta que a cidade já havia enfrentado outras enchentes, principalmente entre 2019 e 2020, mas nada se compara ao que ocorreu nas últimas 24 horas. "E é uma enchente que não se limitou a perdas materiais. Teve gente que morreu saindo para ajudar."

A dentista Carolina Magalhães, também residente em Ubá, foi acordada durante a madrugada por uma vizinha que a alertou sobre a rápida elevação das águas. Ela e o marido desceram para salvar o carro, mas em menos de cinco minutos a água já invadia o prédio.

"A sensação na hora era que ia acontecer algo grave com a gente. Pensei até em pegar meus documentos e ir para o último andar. Foi desesperador. Graças a Deus minhas filhas não estavam em casa", relatou.

Assustada, Carolina começou a registrar pelo celular tudo que via sendo levado pela enchente. "Primeiro passou lixo, depois veio freezer, cadeira, carros, motos, muitos botijões de gás. Até que passou uma van e um caminhão levados pela água. Uma cena de horror."

Em Juiz de Fora, a gerente de vendas Isabela Lourenço ainda tenta entender a magnitude dos danos. "A cidade já teve alagamentos antes, mas em bairros específicos. E dessa vez o impacto foi em toda a cidade. Conheço várias pessoas desalojadas, tenho tios e primos que a Defesa Civil pediu para sair de casa."

A prefeitura de Juiz de Fora também declarou estado de calamidade pública. Pelo menos 20 imóveis foram soterrados e cerca de 440 pessoas ficaram desabrigadas, acolhidas em escolas municipais.

"É uma situação muito triste. As três avenidas principais de Juiz de Fora estão alagadas, com vias fechadas e túneis. Uma situação caótica", destacou.

Com a diminuição do nível da água, moradores começaram a limpar as casas e contabilizar os prejuízos. "Hoje, ao sair de casa, vi um cenário de guerra, devastador", descreve Lucas Gandra.

No local onde trabalha, a enchente quebrou paredes, estourou vidros e inundou toda a loja, destruindo grande parte do estoque. "Não tem como trabalhar, pensar em faturar, porque a cidade não comporta uma infraestrutura para coleta e despacho de pedidos. Uma sensação terrível de impotência."

A médica Marcela Barbosa, que estava em plantão em um município vizinho, mal reconheceu Ubá ao retornar. "Está tudo cheio de lama, uma destruição total."

Apesar dos danos, Gandra encontra apoio na segurança da família e na solidariedade dos vizinhos. "Agora é tentar olhar para um lado positivo. Minha família está bem, mas materialmente vai ser um baque. E não somos só nós, os vizinhos também estão na mesma situação."

Fenômenos climáticos por trás da tragédia

Uma combinação de três fenômenos climáticos resultou na tempestade histórica. Uma frente fria, um cavado e a formação de uma supercélula contribuíram para a tragédia em Minas Gerais, explica Maria Clara Sassaki, porta-voz da Tempo OK Meteorologia.

"A frente fria trouxe bastante instabilidade desde o litoral de São Paulo, passando pelo Rio de Janeiro e, nos últimos dias, acumulou significativos volumes na Zona da Mata Mineira", diz Sassaki.

As supercélulas, embora raras, são as mais severas e podem gerar ventos fortes, chuvas intensas, granizo e tornados. O cavado, por sua vez, favorece a formação dessas nuvens, criando uma área de baixa pressão que puxa a umidade do solo para o alto.

"É como se fosse um vento que joga ar úmido da superfície para a atmosfera, alimentando a nuvem e criando mais condições para seu crescimento", explica a especialista.

*Com reportagem de Thais Carrança*


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