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'Vi companheiros executados ao meu lado por não cumprirem ordens': soldados russos relatam à BBC condições extremas no front da Ucrânia

Quatro soldados russos revelaram o horror e a brutalidade enfrentados na linha de frente da guerra na Ucrânia, que completou quatro anos no dia 24 de fevereiro. Em depoimentos à BBC, dois deles relataram ter visto companheiros executados por se recusarem a cumprir ordens.

Um dos soldados descreveu a execução de um colega a poucos metros de distância, com um tiro disparado por um comandante que se tornou "Herói da Rússia" em 2024.

Outro soldado mencionou ter testemunhado seu comandante atirando em quatro homens, que imploravam por suas vidas.

Um dos entrevistados ainda relatou ter encontrado 20 corpos de soldados em uma vala, após terem sido "zerados", termo utilizado para descrever a execução de membros da própria tropa.

No documentário The Zero Line: Inside Russia's War, os soldados detalham como foram torturados por se negarem a participar de ataques que consideram missões suicidas. Esses ataques são conhecidos como "meat storms", uma estratégia militar russa que envolve o envio incessante de tropas para desgastar as forças ucranianas.

Esta é a primeira vez que soldados russos na linha de frente relatam em público a execução de seus próprios homens por ordens de comandantes.

Um dos entrevistados, responsável por contabilizar os mortos, afirmou ser o único sobrevivente de um grupo de 79 homens mobilizados com ele. Ele relatou ter sido torturado por se recusar a ir para a frente de batalha, e outros que também se negaram enfrentaram choques elétricos e passaram fome antes de serem enviados desarmados.

Os quatro homens, atualmente foragidos, descreveram suas experiências a partir de um local não revelado fora da Rússia.

A oposição à invasão da Ucrânia pelo presidente Vladimir Putin foi quase completamente silenciada na Rússia. Embora o governo não divulgue números oficiais de baixas, o Ministério da Defesa do Reino Unido estima que mais de 1,2 milhão de militares russos foram mortos ou feridos desde o início da invasão em 2022.

O governo russo afirmou que suas Forças Armadas operam com "máxima contenção" e que supostas violações são investigadas. No entanto, os relatos dos soldados corroboram informações sobre a falta de lei e ordem na linha de frente.

Ilya, um dos soldados, antes da guerra, dava aulas para crianças com necessidades especiais. Ele foi mobilizado em 2024 e descreveu a situação caótica no centro de recrutamento, onde a maioria estava embriagada.

Ao chegar à Ucrânia, Ilya foi enviado diretamente para a linha de frente, onde presenciou execuções por desobediência. Ele afirmou que o "zeramento" é uma forma de punição e intimidação.

Dima, outro entrevistado, descreveu sua experiência como técnico de conserto de lava-louças antes da guerra. Ele também viu colegas serem executados por ordem de seu comandante, que recebeu a mais alta condecoração estatal.

Dima revelou que os soldados eram frequentemente tratados com brutalidade, e ele mesmo viu corpos de homens que foram executados e tiveram seus cartões bancários confiscados.

O documentário também ouviu um ex-oficial do Estado-Maior, que descreveu atrocidades cometidas por um "esquadrão de liquidação", afirmando que nunca viu nada parecido em seus 17 anos de serviço.

As "meat storms" são descritas como missões tão letais que parecem suicidas. Dima explicou a lógica militar de enviar sucessivas ondas de homens até romper a linha inimiga.

Os depoimentos também mostraram a desumanização dos soldados, com Ilya relatando torturas físicas e psicológicas, incluindo uma tentativa de suicídio após ser torturado por se recusar a participar de uma ofensiva.

Denis, 27 anos, levou comida a soldados em condições desumanas e mostrou vídeos que documentam abusos, afirmando que isso se tornou uma norma dentro do exército.

Os quatro homens, agora fora da Rússia, ainda lidam com os traumas da guerra. Dima compartilhou visões perturbadoras de seus pesadelos, enquanto Ilya expressou seu amor pelo país, mas repúdio ao que Putin fez a ele.

O documentário The Zero Line: Inside Russia's War está disponível no site da BBC News.


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