Terceira rodada de negociações entre EUA e Irã termina com 'avanços significativos' sobre acordo nuclear, diz mediador
Avanços nas Negociações Nucleares entre EUA e Irã
Crédito: Ministério das Relações Exteriores de Omã
Autor: Hugo Bachega, Correspondente no Oriente Médio, de Jerusalém
Autoridades dos Estados Unidos e do Irã avançaram nas discussões sobre questões nucleares durante encontros realizados em Genebra nesta quinta-feira, 26 de fevereiro, conforme informou o chanceler de Omã, Badr Albusaidi.
Apesar do progresso, ainda não se sabe se as conversas resultarão em um acordo que previna um conflito armado.
Albusaidi, atuando como mediador, destacou que os dois países planejam retomar as negociações em breve, após consultas internas em suas capitais. Reuniões técnicas estão agendadas para a próxima semana em Viena.
Essa foi a terceira rodada de diálogos mediada entre as partes.
O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, que lidera a delegação do Irã, afirmou ter observado um "bom progresso".
Segundo Araghchi, já há consenso em alguns tópicos, mesmo que divergências ainda persistam em outros.
O ministro também indicou que a próxima rodada de negociações deve ocorrer em menos de uma semana.
A expectativa de novas discussões pode diminuir as chances de que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, execute suas ameaças de atacar o Irã.
Historicamente, os EUA e Israel acusam o Irã de tentar desenvolver secretamente armas nucleares, o que o governo iraniano nega, afirmando que seu programa tem fins pacíficos. Contudo, o país é o único que não possui um arsenal nuclear e enriquece urânio próximo ao nível necessário para fins militares.
A mídia estatal iraniana reportou que os negociadores sustentaram o direito do Irã à energia nuclear para fins pacíficos, rejeitando as demandas dos EUA para interromper completamente o enriquecimento de urânio e transferir seu estoque de cerca de 400 kg de material enriquecido para fora do país.
Ainda assim, acredita-se que autoridades iranianas tenham indicado possíveis concessões, embora detalhes não tenham sido divulgados. Uma das propostas mencionadas sugere que o Irã poderia retomar o enriquecimento de urânio em nível mínimo após uma suspensão de três a cinco anos, sob supervisão internacional.
Em contrapartida, os negociadores exigiram a retirada das sanções que afetam a economia iraniana, segundo Araghchi à TV estatal.
Críticos do regime argumentam que qualquer alívio nas sanções poderia fortalecer os líderes religiosos que governam o Irã.
As conversas indiretas ocorreram em duas sessões: uma pela manhã, com duração de três horas, e outra mais curta à noite.
Até o momento, não houve uma resposta imediata por parte dos EUA quanto ao resultado das negociações.
A delegação americana foi representada pelo enviado especial Steve Witkoff e por Jared Kushner, genro de Trump. O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica, Rafael Grossi, também participou.
A aceitação das condições por parte de Trump para um acordo ainda é incerta, e o presidente não detalhou por que haveria necessidade de uma ação militar agora, oito meses após os EUA bombardearem instalações nucleares iranianas durante o conflito entre Israel e o Irã.
Teerã já rejeitou discutir limites para seu programa de mísseis balísticos ou o fim do apoio a grupos aliados na região, como Hamas, Hezbollah, milícias no Iraque e Houthis no Iémen.
Nas últimas semanas, os EUA enviaram milhares de soldados para o Oriente Médio, incluindo dois porta-aviões, além de outros navios de guerra, caças e aeronaves de reabastecimento.
Trump ameaçou bombardear o Irã pela primeira vez no mês passado, após repressão violenta a protestos contra o governo, resultando em milhares de mortes. Desde então, o foco do presidente se voltou para o programa nuclear iraniano, que é central em uma disputa de longa data entre Teerã e o Ocidente.
Durante seu discurso de Estado da União no Congresso, Trump mencionou de forma breve as tensões com o Irã, sem apresentar justificativas claras para possíveis ataques. Ele afirmou que o Irã estaria desenvolvendo mísseis capazes de atingir os EUA "em breve", mas sem fornecer detalhes.
Além disso, acusou o país de tentar reiniciar um programa de armas nucleares e disse que não permitiria que o "maior patrocinador do terrorismo do mundo" possuísse uma arma nuclear.
Horas antes de seu discurso, o ministro das Relações Exteriores iraniano declarou que o Irã "jamais desenvolveria uma arma nuclear".
Em junho do ano passado, os EUA bombardearam três instalações nucleares no Irã, com Trump afirmando que as instalações haviam sido "destruídas". Teerã alegou que suas atividades de enriquecimento foram suspensas após os ataques, embora não tenha permitido o acesso de inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica aos locais danificados.
Relatos da imprensa americana, citando fontes do governo sob anonimato, indicam que Trump considerou lançar um ataque contra a Guarda Revolucionária Islâmica ou contra instalações nucleares iranianas, visando pressionar as lideranças do país.
Caso as negociações não avancem, o presidente poderia ordenar uma campanha militar para derrubar o líder supremo iraniano, Ali Khamenei.
O presidente do Estado-Maior Conjunto dos EUA também alertou que ataques ao Irã seriam arriscados, podendo arrastá-los para um conflito prolongado. Trump, por outro lado, afirmou que o general Dan Caine acredita que a guerra seria "facilmente vencida".
O Irã, por sua vez, ameaçou retaliar qualquer ataque atingindo alvos militares americanos no Oriente Médio e em Israel.
Aliados dos EUA na região expressaram preocupação de que um ataque ao Irã poderia desencadear um conflito mais amplo, ressaltando que o poder aéreo sozinho não seria suficiente para alterar a liderança do país.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, também alertou contra um acordo que não inclua o programa de mísseis balísticos do Irã e seus aliados, considerando o Irã uma ameaça central para Israel e uma fonte de instabilidade regional.
Analistas acreditam que Netanyahu, que visitou a Casa Branca recentemente, pode estar pressionando por uma campanha com o objetivo de derrubar o regime iraniano.
Os EUA detêm o segundo maior arsenal nuclear do mundo, enquanto Israel é amplamente considerado um país com armas nucleares, embora nunca tenha confirmado ou negado essa informação.
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