Tenha um hobby – e seja medíocre. Tá tudo bem
Grandes gênios sempre reservam tempo para o lazer, e você também deveria. Porém, é preciso ter cuidado com a pressão por produtividade e eficiência.
A carta ao leitor da Super explora a vida de Paulo Vanzolini, cientista e sambista, ressaltando a importância dos hobbies. O texto critica a busca constante por produtividade e a desvalorização do tempo livre, encorajando a prática de atividades por puro prazer e a aceitação da mediocridade para uma vida mais criativa e satisfatória.
Paulo Vanzolini (1924-2013) é uma figura icônica da ciência brasileira. Formado em medicina pela USP, ele nunca quis seguir a carreira médica, preferindo aprender sobre anatomia e fisiologia para aplicar no estudo dos animais, sua verdadeira paixão.
Durante a faculdade, passava mais tempo no laboratório de zoologia do que assistindo às aulas. Nos dias que antecediam as provas, ele dormia no Hospital das Clínicas e se dedicava a um intensivão para garantir aprovação.
A formação acadêmica lhe possibilitou um doutorado em Harvard, onde se especializou em répteis e anfíbios. Ao voltar ao Brasil, foi fundamental na criação da Fapesp e dirigiu o Museu de Zoologia da USP por 30 anos, um dos mais completos do mundo.
Em 1993, após se aposentar, continuou trabalhando no museu de segunda a sábado. “É a única coisa de que gosto, a única coisa que sei fazer”, afirmou à revista Scientific American Brasil.
Contudo, Paulo também se aventurou na música. Sem saber tocar um instrumento, decidiu tentar e se tornou um talentoso sambista. Ao longo da vida, compôs mais de 70 canções, interpretadas por artistas como João Gilberto e Elis Regina. Era amigo de Adoniran Barbosa e frequentava a casa dos Buarque de Holanda.
Albert Einstein tocava violino entre os estudos e dizia que “a música é a maior fonte de alegria na minha vida”. Marie Curie adorava andar de bicicleta em longas viagens com seu marido, Pierre. Richard Feynman tocava bongô, uma habilidade que lhe foi útil durante o carnaval carioca.
O hobby de Vanzolini lhe proporcionou uma segunda carreira de sucesso, mas isso não é uma obrigação. Muitos gênios, como Einstein, dedicavam tempo a atividades recreativas sem a intenção de se tornarem profissionais.
A capa da edição deste mês, escrita pela editora Maria Clara Rossini, aborda a preocupação com a maneira como as redes sociais consomem nosso tempo livre, evidenciando um crescente surto de produtividade que invade todos os aspectos da vida.
Domingo é dia de concluir aquele curso online, e a leitura se restringe a livros de autoajuda ou temas úteis para o trabalho. Perdemos a habilidade de simplesmente relaxar ou fazer algo por diversão. É sério que não podemos ler um romance policial após aprender a influenciar pessoas?
É fundamental retomar a prática de cultivar um hobby e aceitar que ser medíocre não significa ser ruim, mas estar na média. Permitir-se fracassar é essencial, possibilitando experiências inesperadas.
Estou tentando adotar a filosofia da mediocridade. Nos finais de semana, gosto de experimentar novas receitas, sem pressão, apenas para agradar quem amo. Uma vez por semana, estudo espanhol sem um objetivo específico (exceto, talvez, conseguir uma entrevista com Bad Bunny). E ainda quero aprender um instrumento, então, desculpem-me, vizinhos.
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