Startups: 70% dos fundos de CVC criados por empresas perdem dinheiro
Startups enfrentam desafios no mercado de CVC
Stephanie Tondo
04/03/2026 05h00
Atualizado 11 horas atrás
Após um período de entusiasmo no mercado de corporate venture capital (CVC) em 2022, o setor começou a apresentar sinais de retração em 2023, refletindo uma postura mais cautelosa e uma reavaliação estratégica por parte das empresas. Essa diminuição do interesse pode estar ligada aos baixos retornos proporcionados por esses fundos. Um levantamento da Spectra Investimentos revela que mais de 70% dos programas de CVC tiveram resultados negativos, indicando que esses fundos têm sido utilizados mais como uma estratégia corporativa do que como uma fonte de capital.
O auge do CVC ocorreu entre 2021 e 2022, quando quase metade dos programas foi criada. Em 2021, foram estabelecidos 18 fundos e, em 2022, 22 fundos. No entanto, em 2023, esse número despencou para apenas 5, e em 2024, apenas dois novos veículos surgiram.
A análise da Spectra abrangeu 32 veículos de investimento no Brasil, utilizando dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A taxa interna de retorno (TIR) média dos fundos foi de -10%, com a mediana em -12% e o quartil superior alcançando uma TIR de 2%.
A pesquisa apontou que 72% dos programas apresentam TIR negativa e, entre os poucos que registraram resultados positivos, apenas 10% alcançaram retornos entre 25% e 50%.
A curva J e o desempenho dos fundos
Um ponto relevante é que 30% da amostra inclui fundos com menos de três anos, que podem estar enfrentando os efeitos iniciais da chamada curva J, comum na indústria de venture capital. Contudo, o estudo sugere que esse fator não explica completamente o desempenho insatisfatório observado nos fundos.
Os programas de CVC frequentemente não possuem um objetivo financeiro direto, sendo muitas vezes guiados por estratégias de inovação e fortalecimento das atividades principais das empresas investidoras. No entanto, 34% dos investimentos foram direcionados a empresas em setores sem relação direta com a atividade central do CVC.
A análise identificou 23 startups que receberam investimentos de um CVC e foram posteriormente adquiridas pela mesma entidade, evidenciando um movimento de incorporação de tecnologias. Também foram mapeados 14 write-offs e 31 saídas de startups vendidas para outras corporações, com 34% das saídas ocorrendo para as patrocinadoras dos CVCs, representando 4% do total investido.
Comparação entre investimentos
O relatório examinou 173 investimentos individuais realizados por CVCs, categorizando-os em três grupos: co-investimentos com fundos de venture capital tradicionais, co-investimentos com VCs mais novos e investimentos independentes dos CVCs.
Os investimentos independentes apresentaram a menor proporção de retornos negativos, com apenas 25% registrando TIR abaixo de zero. Entretanto, apenas 10% das startups nesse grupo atingiram TIR acima de 25%, a menor taxa entre todas as categorias.
Para a Spectra, esse comportamento sugere que o perfil de risco e retorno dos investimentos independentes tende a ser diferente, com menor assimetria e maior foco no retorno estratégico.
Os co-investimentos com VCs tradicionais e novos mostraram distribuições similares. Em ambos os casos, 6% geraram retorno acima de 50%, e entre 11% e 12% ficaram na faixa de 25% a 50%. Quanto aos resultados negativos, cerca de um terço dos casos em ambos os grupos também apresentou TIR negativa.
A principal diferença está nos write-offs: enquanto os co-investimentos com VCs mais novos registraram 5% de perdas totais, os co-investimentos com fundos tradicionais ainda não mostraram write-offs na amostra analisada.
Ao analisar o múltiplo sobre o capital investido (MOIC), a diferença entre os grupos permanece. Nos co-investimentos com VCs mais novos, 3% dos negócios apresentaram múltiplos acima de 10 vezes e outros 3% entre 5 e 10 vezes. Já nos co-investimentos com VCs tradicionais, 11% dos investimentos mostraram múltiplos entre 5 e 10 vezes.
Nos investimentos independentes, apenas 4% superaram múltiplos de 2,5 vezes, reforçando a ideia de que esse tipo de operação tende a ser menos orientado à maximização do retorno financeiro e mais voltado à geração de valor estratégico para a empresa investidora.
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