Retatrutida: remédio emagrece demais e espanta voluntários em teste clínico
Retatrutida: Remédio Emagrece Demais e Afasta Voluntários em Teste Clínico
Em um fato inédito na medicina, voluntários de um ensaio clínico para tratamento da obesidade começaram a abandonar o estudo um a um. O motivo não foram os efeitos colaterais ou a falta de resultados, mas o oposto: o medicamento em questão — retatrutida, desenvolvido pela Eli Lilly — estava fazendo os participantes emagrecerem em excesso.
Os dados preliminares do estudo, que envolveu pacientes com obesidade e osteoartrite do joelho, mostraram que os participantes que receberam a maior dose da retatrutida por quase 70 semanas perderam, em média, 28,7% do peso corporal, um resultado 43,5% superior ao alcançado com a semaglutida.
Enquanto o Ozempic age apenas no GLP-1 e o Mounjaro combina GLP-1 e GIP, a retatrutida se destaca como um triplo agonista hormonal, pois atua simultaneamente nos dois receptores e também no receptor do glucagon (GCGR). Isso significa que ela estimula a quebra de gordura armazenada e aumenta o gasto energético pelo metabolismo do fígado.
Entre os 445 participantes do ensaio, entre 12% e 18% desistiram, alegando que estavam perdendo peso em excesso. Esta é a primeira vez que registros formais de um ensaio clínico de grande porte documentam abandonos motivados pela eficácia excessiva do medicamento.
O paradoxo gerou discussões entre especialistas sobre os objetivos do tratamento da obesidade. Embora o ensaio ainda não tenha sido concluído, isso dificulta a previsão da forma final que o medicamento assumirá antes de uma eventual aprovação regulatória.
Medicamentos para Perda de Peso Foram Longe Demais?
A pergunta que surge é se um remédio para obesidade pode ser potente demais. O Dr. Andrew Kraftson, professor da Universidade de Michigan, acredita que sim. Após retirar um de seus pacientes da medicação por ele querer continuar emagrecendo além de qualquer benefício médico justificável, ele ressaltou que o problema é não apenas clínico, mas também cultural.
Citando os padrões de beleza da sociedade, ele declarou ao The New York Times: “só porque alguém consegue se matar de fome para atingir um peso menor, não significa que devamos facilitar isso administrando uma injeção para promover a anorexia”.
A especialista em diabetes e educação, Maureen Chomko, também comentou que os pacientes que perdem peso em excesso devem receber orientações sobre alimentação. Com a supressão intensa do apetite, que pode provocar até náuseas, muitos pacientes acabam consumindo apenas biscoitos em vez de refeições nutritivas.
Para a nutricionista, a perda de peso excessiva é um sinal claro de que o medicamento foi longe demais. O que a preocupa ainda mais é a atitude do paciente em relação ao emagrecimento, dificultando intervenções até que o dano já esteja feito.
“Precisamos usar a dose que o paciente precisa”, afirmou a Dra. Ania Jastreboff, diretora do Centro de Pesquisa da Obesidade de Yale e pesquisadora líder do estudo sobre a retatrutida, publicado no The New England Journal of Medicine. Segundo ela, a ideia é “tratar a obesidade como faríamos com qualquer outra doença crônica”.
Abordagens Centradas no Paciente
Diante desse panorama, a Novo Nordisk, fabricante do Ozempic e do Wegovy, já sinalizou uma mudança de abordagem. Em um estudo de fase final com o CagriSema — que combina semaglutida e cagrilintida em dose fixa —, a empresa adotou um esquema de dosagem flexível para melhorar a tolerância dos pacientes.
Nesse modelo, se um participante não suportar os efeitos colaterais ou responder bem a uma dose menor, ele pode continuar o tratamento nesse nível personalizado, sem ser excluído do estudo. A farmacêutica dinamarquesa já solicitou a aprovação do CagriSema ao FDA em dezembro de 2025 e espera obtê-la ao longo de 2026.
Além disso, Maureen Chomko está colaborando com a empresa de biotecnologia Amgen em ensaios clínicos do MariTide, um novo anticorpo biespecífico para perda de peso em desenvolvimento, que se destaca pela frequência de administração: uma injeção subcutânea mensal ou menos frequente.
Nos estudos, Chomko se concentra em garantir que os participantes consumam quantidades adequadas de vitamina D, cálcio, fibras e proteínas — nutrientes que frequentemente estão em déficit em pacientes em uso de medicamentos para perda de peso, devido à intensa supressão do apetite.
No Brasil, após circular brevemente em perfis clandestinos do Instagram, a retatrutida foi proibida pela Anvisa em janeiro de 2026 por ainda estar em fase de testes clínicos sem aprovação regulatória. Para a agência, produtos sem controle de qualidade, procedência ou rastreabilidade representam um grave risco à saúde pública.
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