Chico Buarque

Resenha: Ópera do Malandro de Chico Buarque como retrato fiel do Capitalismo Burocrático brasileiro

No dia 23 de janeiro, São Paulo recebeu uma nova montagem da peça musical Ópera do Malandro, escrita por Chico Buarque, no Teatro Renault. Com direção de Jorge Farjalla e um elenco talentoso, a peça estará em cartaz até 15 de março. Aqueles que assistirem à montagem certamente apreciarão a adaptação, resultado do cuidado do diretor em equilibrar uma nova leitura da obra com a preservação de aspectos centrais do texto original, que abordam questões econômicas, políticas e sociais.

Inspirada na obra Ópera dos três vinténs (1928) de Bertold Brecht e Kurt Weill, que é uma paródia da Ópera dos mendigos (1728) de John Gay, Ópera do Malandro foi apresentada pela primeira vez em 1978 por Luís Antônio Martinez Corrêa. O enredo se passa no Rio de Janeiro dos anos 1940, em meio ao Estado Novo e à Segunda Guerra Mundial, retratando a transformação urbana carioca devido à “modernização” do Estado brasileiro resultante da industrialização.

Vale mencionar que existe uma versão da montagem de 2003 disponível no YouTube, dirigida por Charles Moeller e Claudio Botelho, além de uma adaptação cinematográfica de Ruy Guerra em 1985.

Esta resenha busca interpretar a obra de Chico Buarque como uma alegoria do capitalismo burocrático brasileiro durante sua fase de consolidação. A análise se concentrará no enredo e, especialmente, nas letras das canções que impulsionam as ações das personagens e sintetizam o conteúdo da obra, onde as contradições sociais e o forte teor irônico e satírico se tornam evidentes. Portanto, não será feita uma análise detalhada dos aspectos técnicos da cenografia.

Para a análise das letras, esta resenha utiliza a versão gravada em estúdio e lançada em 1979 pela gravadora Phillips. Com composições de Chico Buarque, e produção de Sérgio Carvalho, a versão conta com arranjos de Nelson Aires e Francis Hime, além da participação de grupos como MPB-4, A Cor do Som, e artistas como Marlene, Moreira da Silva, e Alcione. A bela capa e encarte, ilustrados por Elifas Andreato, retratam o malandro como um homem negro, trajado de Zé Pelintra, em um vagão de trem.

Considerada por muitos como a obra-prima de Chico Buarque, Ópera do Malandro aborda fenômenos do capitalismo burocrático, como a migração forçada de nordestinos, a prostituição como condição desumana, o contrabando de mercadorias, o falso moralismo burguês, e a violência contra minorias. Tudo isso sob um discurso de exaltação da pátria e progresso, aliado ao capital monopolista estrangeiro.

Além de criticar a “modernização” do Estado brasileiro dos anos 30 e 40, o autor utiliza a peça para denunciar o regime militar-fascista vigente na época em que a obra foi escrita, refletindo a insatisfação com a repressão e censura.

Não é o objetivo deste texto aprofundar-se nas diferentes interpretações do malandro na cultura brasileira, mas sim destacar duas formas dessa malandragem. A primeira está vinculada às massas populares, que a utilizam como necessidade de sobrevivência diante da exploração. Essa malandragem é uma exigência para que o povo não seja engolido pela velha ordem, recorrendo a pequenos delitos para garantir sua subsistência.

A segunda forma refere-se à malandragem moral decadente das classes exploradoras, que buscam acumulação de capital acima de tudo, utilizando conchavos e práticas corruptas.

Na obra, essas duas formas de malandragem são personificadas em diferentes personagens, funcionando como representações alegóricas de valores políticos e morais em constante movimento. Chico Buarque afirma que a peça fala sobre a luta pelo capital, onde não existem heróis, apenas personagens em busca de sobrevivência ou acumulação.

O cenário político-econômico da Europa no início do século XX, marcado pela industrialização e crises de superprodução, teve repercussões no Brasil, onde a República proclamada em 1889 não alterou a qualidade do regime, perpetuando relações de produção semifeudais.

As primeiras décadas do século XX no Brasil foram marcadas por uma crise econômica resultante da subserviência das classes dominantes ao imperialismo. Levantes populares, como o movimento tenentista, expressaram o desejo de romper essas amarras, mas a burguesia nacional não conseguiu cumprir essa tarefa democrática. O movimento se dividiu entre tendências comunistas e aquelas alinhadas aos interesses da fração burocrática das classes dominantes.

O artigo de A Nova Democracia caracteriza a Aliança Liberal e a Era Vargas como um período em que o Estado foi utilizado para impulsionar o grande capital, consolidando o capitalismo burocrático. O imperialismo ianque extraiu a maior parte do esforço da nação subjugada, controlando investimentos e dominando o Estado brasileiro.

A obra retrata como a industrialização e modernização do Estado brasileiro se deu através da malandragem das classes dominantes, que reprimem a malandragem popular.

Na canção que abre o lado A do disco, O Malandro, a letra reflete o contexto político-econômico da obra, sinalizando que a crise é generalizada e atinge todos os níveis da cadeia produtiva, mas a culpa recai sobre o malandro.

Na canção Hino de Duran, o personagem faz loas ao aparato repressivo, ameaçando o malandro comum. A obra evidencia como a malandragem das massas é esmagada pela máquina de vigilância do Estado, refletindo a luta de classes e a brutalidade do sistema em que todos estão inseridos.


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