Rejeição: o calcanhar de Aquiles nas disputas eleitorais
Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista, professor emérito da ECA-USP e consultor político.
Pesquisas eleitorais costumam ser analisadas pelos índices de aprovação dos candidatos. Quando um nome apresenta crescimento nas intenções de voto, isso gera destaque; por outro lado, quedas acendem alertas. O foco está quase sempre nos eleitores que apoiam um determinado candidato. No entanto, um indicador menos comentado, mas muito mais decisivo nas eleições majoritárias, é o índice de rejeição.
A rejeição se transformou em uma variável central nas disputas. Ela estabelece o teto eleitoral. Embora as intenções de voto possam aumentar com estratégias de marketing, alianças ou eventos favoráveis, a rejeição é mais constante e difícil de mudar. Uma rejeição que ultrapassa 45% a 50% se torna uma barreira quase intransponível.
Flávio Bolsonaro e Lula figuram como os candidatos mais rejeitados, com índices de 55% e 54%, respectivamente. Se Jair Bolsonaro fosse candidato, também enfrentaria cerca de 50% de rejeição.
Esse indicador reflete a quantidade de eleitores que afirmam que não votariam “de jeito nenhum” em um determinado candidato. Esse "muro psicológico" limita a expansão eleitoral. Ao contrário da intenção de voto, que pode ser influenciada por marketing e debates, a rejeição tende a ser mais rígida, funcionando como um teto político.
Quando a rejeição se aproxima da metade do eleitorado, o candidato enfrenta um bloqueio quase matemático para vencer um segundo turno, que exige mais de 50% dos votos válidos.
A recente experiência brasileira mostra exemplos de campanhas que lideravam as pesquisas, mas estagnavam diante da cristalização da rejeição. A aprovação pode aumentar por circunstâncias, enquanto a rejeição geralmente resulta de percepções mais profundas, como imagem negativa, associações a escândalos e estilos agressivos.
Em um cenário de polarização crescente para 2026, a rejeição ganha ainda mais relevância. As identidades políticas tornam-se mais firmes, intensificando os afetos negativos. O eleitor não apenas escolhe, mas também veta. Vota-se contra tanto quanto a favor.
Nesse contexto, a rejeição se torna uma força estruturante do comportamento eleitoral. Ela limita alianças, dificulta transferências de votos e reduz a eficácia de estratégias de crescimento ao centro. Um candidato com 30% de intenção de voto e 45% de rejeição pode parecer competitivo, mas enfrenta severas restrições para expandir seu eleitorado.
A análise conjunta de aprovação e rejeição é, portanto, fundamental. Campanhas bem-sucedidas não apenas acumulam apoios, mas também evitam a ampliação de antagonismos. Isso exige uma calibração cuidadosa dos discursos, uma modulação da imagem pública e a diminuição de arestas que alimentam percepções negativas.
Em resumo, eleições não são vencidas apenas por conquistar apoios, mas pela habilidade de evitar aversões irreversíveis. A aprovação abre caminhos, enquanto a rejeição fecha portas. Quando esses índices superam certos limites, o horizonte da vitória se estreita. Na política, assim como no futebol, há momentos em que o jogo se decide na marca do pênalti, e poucos conseguem converter sob tanta pressão.
Os artigos publicados com assinatura não necessariamente refletem a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de total responsabilidade do autor.
← Voltar para as notícias