Regime dos aiatolás do Irã segue de pé, mas próximos dias determinarão sua sobrevivência: entenda a sucessão
Regime dos aiatolás do Irã enfrenta momento decisivo: entenda a sucessão
Autor: Amir Azimi, da BBC News Persa
A morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, em ataques coordenados entre os Estados Unidos e Israel, colocou a república islâmica em sua situação mais vulnerável desde 1979.
Os ataques miraram a cúpula militar e política do país, em uma ação que Washington considerou essencial para desestabilizar a estrutura de comando iraniana.
Na noite de sábado, 28 de fevereiro, a confirmação da morte de Khamenei gerou reações inesperadas. Imagens de celebrações em várias cidades iranianas e na diáspora mostraram que a eliminação do líder supremo poderia representar uma mudança histórica que a resistência civil não alcançou.
Após os ataques, tanto o presidente dos EUA quanto o primeiro-ministro de Israel fizeram declarações incisivas. Donald Trump convocou os iranianos a aproveitarem a oportunidade para "assumirem o controle de seu governo", enquanto Benjamin Netanyahu afirmou que a mudança de regime é tanto desejável quanto possível.
Embora a fase militar da operação, chamada de Fúria Épica, tenha sido bem organizada sob comando americano, o apelo político ao povo iraniano é incerto.
Na manhã de domingo, a televisão estatal confirmou a morte de Khamenei e anunciou a criação de um conselho temporário de três membros para assumir a autoridade executiva.
O processo de sucessão
Conforme a Constituição do Irã, a escolha do novo líder supremo é tarefa da Assembleia de Peritos, um órgão clerical composto por 88 membros eleitos a cada oito anos.
Entretanto, há uma limitação importante: todos os candidatos são avaliados pelo Conselho dos Guardiães, que possui 12 integrantes profundamente conectados à liderança. Seis membros são nomeados pelo líder supremo e os outros seis são indicados pelo judiciário e aprovados pelo Parlamento.
Khamenei exerceu forte influência sobre o processo de escolha de seu sucessor.
O regime agiu rapidamente para transmitir uma imagem de continuidade e estabilidade. Com a ativação de mecanismos constitucionais, as autoridades indicam que a estrutura permanece intacta, mesmo após a perda de sua figura central.
As especulações sobre possíveis sucessores já começaram, mas no Irã, é raro que candidatos sejam identificados publicamente antes do processo, que ocorre em reuniões fechadas.
Dentro da Assembleia de Peritos, existe um comitê que revisa e seleciona nomes, podendo apresentar uma lista ao plenário assim que os procedimentos formais tiverem início. As votações são secretas, o que dificulta a supervisão externa.
Nos últimos anos, surgiram rumores de que o filho mais velho de Khamenei, Mojtaba, poderia ser um candidato. Contudo, a morte de vários de seus aliados na Guarda Revolucionária Islâmica pode ter alterado o equilíbrio de poder.
O exemplo de junho de 1989, quando Khamenei se tornou líder supremo sem ser um dos favoritos, demonstra que os resultados podem surpreender.
O processo de seleção pode ser ágil, mas a República Islâmica já sofreu um golpe significativo. Relatos indicam que diversos comandantes de alto escalão foram mortos nos ataques, deixando os oficiais sobreviventes sob constante ameaça.
A sensação de vulnerabilidade é evidente: centros de comando danificados, liderança reduzida e decisões tomadas em clima de crise.
Entretanto, o Irã mostrou capacidade de retaliação. Nos primeiros dias após os ataques, forças iranianas atacaram bases americanas em países árabes e alvos em Israel.
Mísseis atingiram, pela primeira vez, alvos civis em Dubai e um aeroporto no Kuwait, expandindo a geografia do conflito.
Possíveis desdobramentos
A possibilidade de uma escalada regional ainda é uma preocupação. Para os líderes iranianos, se o conflito se intensificar e seus aliados se unirem, Teerã poderá ganhar influência para negociar um cessar-fogo, evitando uma rendição total.
Por outro lado, a pressão militar contínua, combinada com novos protestos, pode levar a um colapso do regime. Se as forças de segurança se fragmentarem ou se houver resistência a seguir ordens, qualquer transição constitucional poderá se tornar irrelevante.
Os próximos dias indicarão se a Guarda Revolucionária Islâmica e outros elementos do aparato coercitivo conseguirão manter a coesão sem seu líder supremo.
Atualmente, a República Islâmica parece mais frágil do que antes dos ataques, sem sua figura central, desprovida de líderes-chave e sob pressão militar constante.
O futuro do Irã está em uma fase volátil. O que ocorrerá a seguir dependerá da capacidade de Teerã em manter o controle interno diante dos ataques, da dinâmica dos protestos e da possível proliferação de combates na região.
Os próximos dias devem esclarecer a situação, à medida que todos os lados testarem seus limites militares e determinação política.
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