Rafael Kuerten

Rafael Kuerten, administrador: 'A sociedade exige mais respeito pelo deficiente'

Nasci em 1973 e sou pai de quatro filhos. Graduei-me em ciências da computação, uma formação que, embora não tenha exercido profissionalmente, foi fundamental para minha atuação como administrador. Sempre tive uma grande paixão pelo tênis e sou responsável pela carreira do meu irmão.

Poucos conhecem a profundidade da minha ligação com o esporte. Já atuei em diversas funções no universo do tênis: ministrei aulas, encordoei raquetes, fui técnico de equipes, juiz credenciado, além de diretor e presidente de um conselho de federação. Minha relação com o esporte começou cedo, mesmo antes de saber que Guga se tornaria uma grande referência.

Você pensou em seguir uma carreira profissional como jogador?

Nunca. Muitas pessoas me perguntam se deixei minha carreira de lado em função do Guga, mas nunca considerei ser um atleta profissional. É evidente que eu não tinha o mesmo potencial competitivo dele. Era claro que aquele não era meu caminho.

Como foi acompanhar a ascensão do Guga?

A trajetória dele foi construída em família. Quando ele estava em quadra, todos nós jogávamos com ele. Compartilhamos tanto as alegrias quanto as dificuldades. O Guga subiu degrau por degrau, sem apressar etapas. A vitória em Roland Garros, em 1997, não estava nos nossos planos, mas nossa meta era ficar entre os 30 melhores do mundo naquele ano, e ele terminou em 14º no ranking.

Essa estrutura familiar ajudou no sucesso dele?

Com certeza. O atleta brasileiro é muito passional e vive emoções intensas. Estar bem amparado torna tudo mais fácil. O esforço do Guga é resultado do trabalho de toda a família.

Como atua o Instituto Guga Kuerten?

O projeto foi iniciado em 2000. Com uma mãe formada em assistência social, aprendemos desde cedo a compartilhar. Já realizávamos ações sociais quando o Guga começou a ganhar destaque, mas precisávamos de uma entidade para organizar esse trabalho. A experiência nos ensina que você sempre recebe de volta ao compartilhar. O instituto visa a inserção social por meio do esporte, transmitindo valores que o tênis nos ensinou, como respeito, coleguismo, superação e como lidar com a derrota. Queremos ensinar as crianças a sonhar, considerando que suas realidades são bastante desafiadoras. Além disso, devido ao nosso irmão Guilherme, que faleceu em 2007 e era deficiente, mantemos uma relação próxima com a APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais).

Qual é a situação da inclusão dos deficientes no Brasil?

Ainda não é a ideal, mas estamos vendo avanços, como leis que promovem a acessibilidade. O próximo passo é a conscientização da população, que já está em andamento. Hoje em dia, não se tolera mais quem estaciona em vagas de deficientes para resolver algo rapidamente. A sociedade agora exige mais respeito.

Como era a relação de vocês com o Guilherme?

Nos anos 1980, era comum que as pessoas não expusessem seus familiares deficientes. Mas sempre que íamos ao clube de tênis, ele estava conosco e participava. Ele nos ensinou sobre humildade e respeito. Contudo, como o Guga sempre ressalta, o verdadeiro fenômeno na nossa casa foi nossa mãe, que criou três filhos praticamente sozinha após a morte do nosso pai quando éramos pequenos. Ela é um exemplo para todos nós.


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