Quem são os aiatolás, que governam o Irã desde 1979
Quem são os aiatolás que governam o Irã desde 1979
Antes de mais nada, é importante esclarecer que o termo aiatolá não se refere a um cargo político, mas sim a um título honorífico dentro do xiismo, uma das principais vertentes do islã, seguida por cerca de 16% dos muçulmanos. Esse título é concedido aos religiosos que alcançam altos níveis de conhecimento islâmico.
A antropóloga Francirosy Campos Barbosa, professora na Universidade de São Paulo, explica que o título é atribuído a estudiosos reconhecidos por sua profundidade em conhecimento. O orientador religioso Nasser Khazraji, diretor do Centro Islâmico no Brasil - Arresala, complementa que são aqueles que atingem o nível máximo de estudo.
Para os xiitas, os aiatolás são considerados os mais sábios, possuindo uma compreensão profunda do Alcorão e das leis de Deus sob a perspectiva islâmica. O cientista político Paulo Nicolli Ramirez destaca que, na visão xiita, são eles que definem as diretrizes governamentais e a elaboração da Constituição.
A palavra aiatolá deriva da expressão árabe āyat Allāh, que significa "sinal de Deus". Esses religiosos são vistos como especialistas altamente qualificados na sharia, o sistema de leis islâmicas fundamentado no Alcorão, nos hádices e na suna, que são os ensinamentos deixados pelo profeta Maomé.
Embora a relevância dos aiatolás remonte aos primórdios do islã, o uso formal do título se consolidou no século 19, especialmente no Irã e no Iraque, que se tornaram importantes centros de estudo e prática do xiismo.
Os aiatolás começaram a assumir uma posição de liderança na nação islâmica desde o século 8, após a morte do décimo segundo sucessor de Maomé. Atualmente, existem centenas de aiatolás, a maioria concentrada no Irã e no Iraque, mas também presentes em outros países do Oriente Médio, como o Líbano. No entanto, apenas no Irã o aiatolá ocupa a posição de chefe de Estado, enquanto em outros locais exercem influência religiosa e social, mas não controle político.
Esses líderes religiosos orientam os fiéis em questões diversas, desde religiosas até políticas e sociais. Cada muçulmano escolhe um aiatolá para seguir, que pode ter ênfase em aspectos distintos, como temas sociais ou religiosos.
A designação de aiatolá resulta de um longo processo de formação intelectual e reconhecimento religioso. Para alcançar esse status, são necessários muitos anos de estudos em seminários islâmicos, conhecidos como hawza, como os de Qom no Irã e Najaf no Iraque.
O percurso de formação inclui estudo dos textos sagrados, jurisprudência islâmica, teologia, ética e filosofia, além de história e língua árabe. O candidato deve demonstrar capacidade de interpretação independente e, uma vez reconhecido, sua autoridade intelectual é aceita pela comunidade religiosa.
A jornada de estudos é longa e muitas vezes começa na infância, com dedicação intensa. A aprovação de um mestre é crucial para que ele se forme como aiatolá.
Existem subdivisões dentro do título, sendo que alguns alcançam maior prestígio e recebem o título de grande aiatolá. Alguns aiatolás usam turbante preto, sinalizando descendência do profeta Muhammad, mas isso não implica necessariamente em autoridade política.
A Revolução Iraniana de 1979 foi um marco que uniu religião e política, transformando o Irã de uma monarquia autocrática em uma república islâmica teocrática. O primeiro aiatolá a assumir o poder foi Ruholah Musavi Khomeini, seguido por Ali Hosseini Khamenei. No Irã atual, além do chefe de Estado, há um grupo de aiatolás atuando como conselheiros, refletindo a intersecção entre teologia islâmica e organização política.
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