Quem é a voz no Senado que confrontou e expôs omissão de Alcolumbre no caso Master
A voz que confrontou Alcolumbre no Senado
A reabertura dos trabalhos legislativos foi marcada por um pronunciamento incisivo do senador Eduardo Girão (Novo-CE), que se dirigiu a Davi Alcolumbre (União-AP) enquanto o presidente do Senado presidia a sessão nesta terça-feira, 24 de outubro. Girão responsabilizou Alcolumbre pela inércia do Congresso no caso do Banco Master e exigiu a instalação imediata de uma comissão parlamentar de inquérito (CPI), seja apenas no Senado, da qual é autor do requerimento, ou em conjunto com a Câmara, para investigar "a maior fraude financeira da história".
Girão destacou fatos graves que vão além da disputa político-ideológica e manifestou o desejo da sociedade por "uma resposta que só o Legislativo pode oferecer". Ele também pediu a abertura de processos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) envolvidos no escândalo — Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. "A CPI é inegociável. Temos, há três meses, o apoio expressivo de 51 dos 81 colegas e não aceitaremos atalhos", declarou.
Durante o momento mais tenso do discurso, Girão afirmou que Alcolumbre poderia ser "talvez o maior responsável" pela desmoralização do Senado. Ele enfatizou que o prazo para mudanças se esgotou e que o presidente da Casa não pode "tapar o sol com a peneira" ou esconder escândalos "debaixo do tapete". "Não faça isso com o Brasil! A paz da indiferença é o oposto da paz verdadeira, que exige ação e justiça. O Senado precisa ser respeitado e não pode estar a serviço de quem quer que seja".
A situação no Senado se torna ainda mais grave com a operação da Polícia Federal contra um aliado de Alcolumbre, levando a crise do Banco Master ao centro das discussões.
Girão acionou a PGR contra Toffoli por sua condução no caso e a proposta de CPI do Banco Master já conta com o número necessário de assinaturas.
Alcolumbre ouviu a fala do senador cearense atentamente, mas sem reagir, mesmo quando foi cobrado como representante do Amapá, estado diretamente afetado pelo escândalo, que resultou na perda de R$ 400 milhões do fundo de previdência dos servidores estaduais aplicados no banco. "O senhor deveria ser o primeiro a querer investigar tudo", afirmou.
Girão descreveu a reabertura do plenário após o recesso parlamentar como o fim de um "longo e tenebroso inverno" e ressaltou que nunca havia visto, em sete anos de mandato, o Senado praticamente fechado durante todo o mês de fevereiro, em meio a escândalos que exigem uma resposta imediata. Segundo ele, "a Casa fechou para balanço enquanto o país aguardava reação".
O senador, olhando nos olhos de Alcolumbre, lembrou a promessa feita por ele ao assumir a Presidência do Senado pela primeira vez, em 2019, de acabar com a falta de transparência na Casa. No entanto, segundo Girão, o que se viu foi a "República do segredismo", citando o sigilo de 100 anos imposto pela Casa sobre informações relacionadas às visitas do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como "careca do INSS", aos gabinetes de senadores.
Girão pressionou por investigação, lembrando que o requerimento de CPI está parado há meses na mesa do Senado, sem qualquer manifestação de Alcolumbre. Ele rejeitou propostas de acordos que visavam esvaziar a pressão, como a troca de votos pela votação do veto presidencial ao projeto de redução das penas dos condenados no 8 de janeiro. "É outra coisa", rebateu.
O discurso ganhou contornos eleitorais com a intervenção do líder da oposição, senador Rogério Marinho (PL-RN), que associou os escândalos financeiros aos governos do PT e chamou de "chantagem" a tentativa de condicionar votações à desistência de investigações. Girão respondeu que irá "às últimas consequências" para que a CPI do Senado seja aberta, pois as "barbaridades" do banco precisam ser desvendadas.
Ao longo de sua fala, ele mencionou "129 milhões de razões" para analisar contratos firmados com o banco, referindo-se ao valor acertado com o escritório de Viviane Barci, esposa do ministro Alexandre de Moraes. O contrato, que previa essa quantia para defender o banco, foi revelado pelo jornal O Globo, levantando suspeitas de um possível conflito de interesses.
A manifestação de Girão contra a passividade de Alcolumbre ocorre em um momento em que ele decidiu não buscar um novo mandato no Senado, sendo pré-candidato ao governo do Ceará, com o apoio de senadores de direita e da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL). Essa decisão levou ao rompimento de um acordo prévio entre o partido dela e o grupo de Ciro Gomes (PSDB) para as eleições de 2026.
O discurso firmou a posição assertiva de Girão. Como líder de si mesmo na bancada unitária do Novo, ele se articula com parlamentares da oposição e da minoria, apresentando-se como independente, embora critique a perseguição à direita e ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), promovida pela esquerda, governo e Judiciário.
Nos últimos anos, Girão criticou a "blindagem" da Presidência do Senado, afirmando que Alcolumbre evitava sessões presenciais para não tratar de temas espinhosos para o governo e para o Judiciário. Ele chegou a classificar a liderança da Casa como uma "tragédia" para a independência do Legislativo, sempre reafirmando a "desmoralização" deste poder na sociedade devido à falta de liderança responsável.
Suas investidas verbais e regimentais para denunciar a omissão do Senado diante de situações críticas e do clamor da sociedade são frequentemente seguidas por outros senadores, como Cleitinho (Republicanos-MG), Rogério Marinho, Magno Malta (PL-ES) e Carlos Portinho (PL-RJ).
Para entender a disposição de Girão para o confronto, é importante conhecer sua trajetória. Luís Eduardo Grangeiro Girão, de 52 anos, possui uma longa e bem-sucedida carreira como empresário nas áreas de segurança e hotelaria. Espírita, fundou em 2004 a Associação Estação da Luz, voltada para a produção cinematográfica com temas de espiritualidade e causas sociais. Ele ganhou destaque público ao presidir em 2018 o Fortaleza Esporte Clube, quando o time alcançou a Série B.
Eleito senador em 2018, seu mandato vai até fevereiro de 2027. Sua atuação se concentra no combate ao aborto
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