Quem controlar o discurso da segurança pública terá vantagem nas eleições
Controle do Discurso de Segurança Pública nas Eleições
A dificuldade da esquerda em discutir e propor soluções na área de segurança pública contribui para que o medo se transforme em ferramenta política.
Não se trata apenas da política de segurança em si, mas da maneira como ela é abordada. A esquerda frequentemente ignora esse aspecto. Enquanto a direita simplifica a narrativa, prometendo punições imediatas e convertendo o medo em respostas rápidas, muitos na esquerda continuam a discutir a violência como se estivessem em um seminário, desconectados da realidade exaustiva de quem vive sob essa pressão.
Uma amiga resumiu essa questão ao comentarmos sobre uma pesquisa do Instituto Genial/Quaest, divulgada após a chacina policial nos complexos da Penha e do Alemão, no final de 2025: “Eles estão cansados de serem comparados com bandidos”. A família dela reside na Cidade de Deus e está exausta de acordar todos os dias sabendo que, para o restante da cidade, o código postal é mais relevante do que qualquer outra coisa.
A pesquisa indicou que mais de 60% dos moradores do estado do Rio de Janeiro apoiavam a megaoperação que resultou em mais de 120 mortes. Uma operação que não prendeu o traficante mais procurado do estado, não desmantelou redes criminosas e não alterou o controle territorial. Contudo, foi bem avaliada, não pelo sucesso, mas pela aparência de eficácia.
Poucos dias depois, outro levantamento, encomendado pelo ICL Notícias, revelou que uma parte significativa da população brasileira aceita punir um inocente em nome do combate ao crime. Não como exceção, mas como uma lógica aceitável. Este dado é alarmante, pois não se refere apenas à segurança pública, mas também ao quanto a democracia brasileira está disposta a sacrificar quando o medo se manifesta.
Quando se aceita que um inocente pague pelo que acontece na segurança pública, isso implica uma mensagem clara: algumas vidas são descartáveis. Errar "para mais" torna-se aceitável. A presunção de inocência pode ser relativizada dependendo do contexto social.
Esse entendimento ajuda a esclarecer o paradoxo revelado pela pesquisa da Quaest. Apesar de aprovarem operações letais, muitos afirmam se sentir menos seguros após essas ações. Não há contradição, mas sim coerência. O que é avaliado positivamente não é o efeito real da política, mas a ação punitiva, a demonstração de força, a ideia de que o Estado está “fazendo algo”, mesmo que isso custe vidas que nunca entram na contabilidade.
Essas pesquisas não se referem apenas a uma operação policial ou a um estado específico, mas à maneira como o medo está reconfigurando a política brasileira. Quando a punição de inocentes se torna socialmente aceitável, princípios fundamentais da democracia se tornam obstáculos. As operações letais não precisam de resultados concretos para serem aprovadas — apenas parecerem severas. Assim, a violência se transforma em ativo político, moldando escolhas eleitorais e redefinindo o debate público à medida que as eleições se aproximam.
No ponto de vista da minha amiga, ser confundido com bandido não é um efeito colateral da política de segurança, mas parte da estratégia. É assim que se perpetua uma lógica em que punir inocentes não é um escândalo, mas um custo operacional.
A segurança será um tema central nas eleições de 2026, transformando a disputa em uma questão de quem mata e quem morre no país.
O medo, revelado nas pesquisas, é palpável. Ele permeia o cotidiano de quem vive em favelas, periferias e bairros populares. Medo de sair para trabalhar e não retornar. Medo de estar no lugar errado na hora errada. Medo de ser abordado, alvejado. Medo de existir sob um Estado que aceita errar sempre para o mesmo lado.
Quando a maioria da população concorda que um inocente deve ser punido, o que está em jogo não é apenas a eficácia do combate ao crime, mas uma redefinição silenciosa de quem merece proteção e quem pode ser sacrificado. A política de segurança se transforma em uma política de exceção permanente, aplicada sempre nos mesmos locais, sobre as mesmas pessoas.
O resultado é previsível: operações espetaculares, contagem de mortos, imagens aéreas e coletivas de imprensa. O território continua sob controle de grupos armados. A violência persiste, mas a narrativa se mantém. O medo se converte em voto. A brutalidade se torna ativo político.
A família da minha amiga deseja viver em um país onde aceitar a punição de inocentes não seja visto como maturidade política. Eles querem um lugar onde segurança não signifique suspeita constante, onde direitos não sejam considerados um luxo e onde políticas públicas não precisem gerar montanhas de corpos para provar sua existência.
Enquanto as pesquisas continuarem a indicar que estamos dispostos a sacrificar inocentes em troca de uma sensação frágil de controle, o problema não estará restrito às favelas, mas no coração da nossa democracia — e na disposição de abandoná-la para nos sentirmos, mesmo que por um breve momento, menos aterrorizados.
As pessoas estão cansadas. Cansadas de tiroteios, enterros, balas perdidas, de criar filhos com medo. Elas não pedem soluções mágicas, mas desejam ouvir alguém que reconheça esse cansaço, sem tratá-las como ignorantes ou moralmente inferiores por sentirem medo. Quem conseguir comunicar-se de maneira clara sobre crime e violência, sem naturalizar a morte ou relativizar direitos, terá uma vantagem na disputa por esse espaço.
As eleições de 2026 não serão decididas apenas por quem promete mais força ou punição, mas por quem conseguir oferecer sentido em meio ao caos. A segurança pública tornou-se uma linguagem política. Aqueles que não aprenderem a falar essa língua — com responsabilidade, empatia e firmeza — correm o risco de permanecer como espectadores, enquanto outros transformam o medo em voto.
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