Raul Seixas

Quando Raul Seixas encontrou Alejandro González Iñarritu: ou a (inesperada) benção da ignorância

Reflexões sobre Cinema e Ignorância

Aqueles que me conhecem bem sabem que tenho uma verdadeira paixão pelo cinema. Sempre desejei uma formação cultural que me conectasse mais ao teatro, admirando a coragem de quem se expõe a um público que reage de maneira imediata, sem artifícios ou edições. Contudo, admito que essa formação não me foi dada e, quando tive a oportunidade de buscá-la, não o fiz.

Talvez por isso tenha me encantado, há anos, pelo filme Birdman ou A Inesperada Virtude Da Ignorância, do diretor mexicano Alejandro González Iñarritu. Já conhecia algumas de suas obras, como 21 Gramas, Amores Perros, Biutiful, O Regresso e Babel. Ele explora temas existenciais de forma acelerada e vibrante, em contraste com a narrativa mais lenta de Terrence Malick, também conhecido por suas “viagens interiores”. Embora resumir a obra de alguém em poucas linhas seja complicado, posso destacar o que me fascina em Birdman.

A ousadia de criar um filme que gira em torno de uma peça de teatro, baseada em um livro de Raymond Carver, intitulado De Que Falamos Quando Falamos de Amor, é notável. O eixo central da história aborda a tensão entre autenticidade e fraude, relevância e irrelevância, prestígio e popularidade, entre outros aspectos da cultura.

A peça e o filme se entrelaçam, pois os contos de Carver, adaptados pelo “diretor/ator” Riggs (interpretado por Michael Keaton), buscam explorar o que é o amor, através de diferentes narrativas e compreensões. Na cena final, Riggs descobre sua verdadeira condição e toma uma decisão crucial, conectando-se ao desfecho da narrativa.

O ambiente claustrofóbico de um teatro na Broadway foi uma sacada brilhante. A escolha do elenco, com Michael Keaton no papel principal e a participação de Ed Norton, Emma Stone, Naomi Watts e Zach Galifianakis, mostra a habilidade do diretor em misturar talentos, proporcionando à trama um toque cômico, evitando a previsibilidade dos bastidores de um teatro ou de um bar pequeno.

Além disso, Iñarritu inverte essa lógica de claustrofobia ao apresentar uma cena impressionante de Keaton ao ar livre, em uma situação desconfortável, sufocado pela reação da multidão. Uma metáfora perfeita para o “sucesso”.

Entretanto, o que realmente torna o filme excepcional é como Alejandro González Iñarritu se conecta a Raul Seixas, que em uma de suas músicas nos ensinou que “pena não ser burro, assim não sofria tanto”.

Raul e Iñarritu compreendem que a ignorância pode ser uma benção, mas o cineasta captura com precisão o momento do “aprendizado”, e é isso que, em minha opinião, faz de Birdman um clássico. Assim como as bonecas russas, as camadas do filme se revelam umas dentro das outras. Os dois papéis vividos por Keaton se libertam do sofrimento que vem com a plena consciência.

Do ponto de vista existencial, imaginado pelo diretor, pouco importa definir categorias ou relevância. O essencial é não desperdiçar o tempo de vida buscando algo que, ao ser alcançado, pode se revelar inútil ou menos fundamental do que se pensava.

Seria isso uma reflexão psicológica vazia? Pode ser... mas é uma história muito bem contada e filmada, que vale cada minuto.


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