Projeto criado em Roraima que usa IA para enfrentar desperdício de dinheiro público será apresentado em Boston
Projeto de Roraima utiliza IA para combater desperdício de dinheiro público em Boston
O ComprasMatch, uma iniciativa vitoriosa do AI4Good, será apresentado na 12ª Brazil Conference, que acontece entre os dias 27 e 29 de março no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).
Desenvolvido em Roraima, o projeto busca enfrentar o desperdício de recursos públicos através da inteligência artificial e ganhou destaque internacional. Criado pelo acadêmico Guilherme Cesar Benevides e pelo professor Tiago Lobo, ambos do curso de Bacharelado em Ciências da Computação da Universidade Estadual de Roraima (UERR), o ComprasMatch foi um dos três vencedores do AI4Good 2026.
Em entrevista, o professor Tiago Lobo detalhou que a ferramenta faz uso de inteligência artificial e Processamento de Linguagem Natural para identificar compras públicas semelhantes realizadas por diferentes órgãos. O objetivo é fomentar a “economia de escala”. O sistema funciona como um leitor inteligente, analisando milhares de contratos disponíveis em portais públicos, como o Comprasnet.
“Frequentemente, diferentes órgãos compram os mesmos produtos separadamente, o que diminui o poder de negociação e encarece os itens. Nossa proposta é alertar quando dois ou mais órgãos planejam adquirir produtos semelhantes, permitindo que realizem compras conjuntas e consigam descontos maiores”, explicou.
O funcionamento da ferramenta se baseia em dados disponíveis no Portal Nacional de Contratações Públicas. Segundo Tiago, a análise manual dessas informações seria inviável devido ao extenso volume de dados. “O sistema consegue comparar milhares de itens e identificar quais têm alto grau de semelhança, automatizando um trabalho que levaria anos para ser concluído manualmente”, enfatizou.
Apesar de o impacto ser indireto, a economia gerada pode ser expressiva. Tiago mencionou que, em alguns casos, compras compartilhadas resultaram em redução de até 90% nos custos de determinados produtos.
“Quando o poder público economiza, esses recursos podem ser redirecionados para áreas essenciais. A expectativa é que o ComprasMatch contribua para resultados semelhantes em setores como saúde, tecnologia da informação, material de escritório e aquisição de veículos”, afirmou.
Da ideia ao reconhecimento internacional
O projeto é parte do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da UERR e está vinculado à iniciativa “Inovação com Inteligência Artificial na Fronteira: Aplicações Práticas e Análise de Dados para os Desafios da Região Norte”, coordenada pelo professor Bruno César Barreto de Figueirêdo.
Guilherme, acadêmico do 7º semestre, contou que o projeto foi desenvolvido em apenas seis meses, motivado por seu desejo de ingressar na pesquisa acadêmica. A inscrição no AI4Good ocorreu quando a ferramenta ainda estava em suas fases iniciais, e a seleção surpreendeu a equipe.
“Eu tinha a intenção de fazer mestrado e pedi ao professor que me informasse sobre novos projetos. Quando abriu o edital do PIBIC, ele me apresentou a ideia e desenvolvemos juntos. A inscrição no AI4Good foi feita em outubro do ano passado, e ficamos entre os selecionados entre mais de 180 projetos de todo o país, o que foi uma grande surpresa para nós”, relatou.
Representatividade e próximos passos
Para Guilherme, representar Roraima em um evento internacional é uma grande responsabilidade. “É uma pressão significativa. Não é apenas sobre mim, mas sobre a universidade, os professores e o estado. Quero apresentar um bom trabalho e mostrar que conseguimos produzir tecnologia de qualidade aqui”, expressou.
Tiago sublinhou que o reconhecimento reforça o potencial acadêmico da região. “A universidade enfrenta muitos desafios, mas possui professores e alunos dedicados. Esse resultado demonstra que é possível realizar pesquisas relevantes mesmo com recursos limitados”, afirmou.
Atualmente, a equipe está finalizando um artigo científico para submissão a um evento da Sociedade Brasileira de Computação e considera a aplicação prática da ferramenta em órgãos públicos, caso surjam parcerias ou investimentos após a apresentação internacional.
“A inteligência artificial não substitui as pessoas, mas potencializa capacidades. Nosso objetivo é utilizar tecnologia para aprimorar a gestão pública e beneficiar a população”, concluiu a dupla.
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