Programa nuclear iraniano ainda é uma ameaça como dizem os EUA?
EUA atacam Irã: programa nuclear do país é uma ameaça?
Luis Barrucho, da BBC World Service
Na manhã deste sábado (28/02), Estados Unidos e Israel realizaram um ataque coordenado contra o Irã. O presidente americano, Donald Trump, confirmou que "grandes operações de combate" estão em andamento.
Em um vídeo publicado em suas redes sociais, Trump afirmou que a ação visa prevenir o avanço do programa nuclear iraniano.
Segundo ele, o Irã "tentou reconstruir seu programa nuclear e continuar desenvolvendo mísseis de longo alcance que podem ameaçar nossos amigos e aliados na Europa, nossas tropas no exterior e, em breve, o território americano".
Embora o Irã negue a posse de uma bomba nuclear, muitos países e a Agência Internacional de Energia Atômica não compartilham dessa crença.
Qual é a real situação do programa iraniano após os ataques dos EUA em junho de 2025? Quão séria é realmente essa ameaça?
Como está o programa nuclear do Irã?
A situação do programa nuclear iraniano permanece obscura após os ataques a instalações nucleares durante a guerra de 12 dias entre Israel e Irã em junho do ano passado.
Os EUA atacaram brevemente três instalações: o maior complexo de pesquisa nuclear em Isfahan, além de centros em Natanz e Fordo, responsáveis pelo enriquecimento de urânio.
Trump afirmou que as instalações foram "destruídas", mas uma semana depois, Rafael Grossi, chefe da Agência Internacional de Energia Atômica, mencionou que os danos foram graves, mas não totais, sugerindo que o enriquecimento poderia ser retomado em alguns meses.
A agência estima que, quando Israel lançou ataques aéreos em 13 de junho, o Irã possuía cerca de 440 quilos de urânio enriquecido a até 60% de pureza — uma fração do necessário para alcançar os 90% requeridos para armas nucleares.
Grossi afirmou em outubro à Associated Press que essa quantidade, se enriquecida, seria suficiente para produzir até dez bombas nucleares.
Em novembro, Abbas Araghchi, ministro das Relações Exteriores do Irã, disse à revista The Economist que o enriquecimento de urânio havia sido paralisado. Contudo, ele gerou polêmica ao afirmar em entrevista à Fox News que, apesar das destruições, "a tecnologia e a determinação não podem ser bombardeadas".
Grossi revelou em janeiro que conseguiu inspecionar 13 instalações nucleares no Irã que não foram atingidas, mas não as três principais. Ele destacou que já se passara sete meses desde a última verificação do estoque de urânio enriquecido.
Persistem incertezas sobre o estado atual do estoque e das instalações de enriquecimento.
Como chegamos a essa situação?
O governo iraniano afirma que suas atividades nucleares são exclusivamente civis. O Irã é signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), que permite o uso de tecnologia nuclear para fins pacíficos, mas proíbe a busca por armas.
Entretanto, uma investigação da Agência Internacional de Energia Atômica constatou que, entre o final da década de 1980 e 2003, o Irã desenvolveu atividades relevantes para a criação de um dispositivo explosivo nuclear.
Embora a agência afirmasse que o programa, conhecido como Projeto Amad, havia sido interrompido, em 2009, agências de inteligência ocidentais identificaram a instalação de Fordo.
Em 2015, a agência relatou não haver "indícios críveis" de atividades nucleares relevantes após 2009.
Nesse mesmo ano, o Irã firmou um acordo com seis potências globais, aceitando limites rigorosos em suas atividades nucleares em troca do alívio das sanções. O acordo restringiu o enriquecimento a 3,67%, adequado para energia nuclear, e suspendeu atividades em Fordo sob monitoramento.
Porém, em 2018, Trump retirou-se do acordo, alegando que ele não impedia o Irã de desenvolver armas nucleares, e restabeleceu as sanções.
O Irã então violou os limites do acordo, enriquecendo urânio a 60%, instalando centrífugas avançadas e retomando atividades em Fordo.
Em 12 de junho de 2025, o Conselho de Governadores da Agência Internacional de Energia Atômica declarou que o Irã havia violado suas obrigações de não proliferação, levando Israel a iniciar ataques aéreos no dia seguinte.
O Irã está desenvolvendo instalações nucleares?
Imagens de satélite indicam que atividades têm sido realizadas nas instalações de Natanz e Isfahan nos últimos meses. Em Isfahan, as entradas para o complexo de túneis parecem estar seladas e um novo teto foi construído.
Em Natanz, também há um novo teto, e o Irã está fortificando um complexo subterrâneo conhecido como Monte Kolang Gaz La, que não foi atacado e fica a cerca de dois quilômetros de Natanz.
Quanto tempo levaria para o Irã construir uma arma nuclear?
Produzir urânio enriquecido não é o mesmo que construir uma arma nuclear operacional, que requer etapas técnicas adicionais.
Uma avaliação da Agência de Inteligência de Defesa dos Estados Unidos em maio do ano passado indicou que o Irã poderia produzir urânio suficiente para armas em "provavelmente menos de uma semana".
No entanto, há divergências sobre se o Irã está efetivamente buscando produzir armas nucleares. A avaliação também observou que "é quase certo que o Irã não esteja produzindo armas nucleares, mas tem realizado atividades que o posicionam melhor para isso, se desejar".
Militares israelenses afirmaram em junho que tinham informações suficientes para afirmar que "progressos concretos" foram feitos nos esforços do Irã para produzir componentes de armas.
Patricia Lewis, especialista em controle de armas, ressaltou que o Irã havia desenvolvido alguma capacidade para projetar ogivas até 2003, mas pode ter decidido reiniciar o desenvolvimento após o colapso do acordo nuclear de 2015.
Em 18 de fevereiro, ao ser questionado sobre sinais de desenvolvimento ativo de armas, Grossi afirmou: "Não". Ele destacou a disposição de ambos os lados para chegar a um acordo.
Por que uma arma nuclear iraniana seria preocupante?
Líderes ocidentais defendem que o Irã não deve ter armas nucleares. Trump afirmou que "o mundo seria destruído" caso isso ocorresse e que isso alteraria a dinâmica global.
O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, alertou que um Irã nuclear representaria "a maior ameaça à estabilidade da região". H. A. Hellyer, especialista do Royal United Services Institute, apontou que isso aumentaria a tensão regional e complicaria o gerenciamento de crises, especialmente para
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