Estados Unidos

Por que os líderes europeus têm dificuldade em adotar uma posição unificada sobre o Irã

Desafios da Europa na Crise Irani

Katya Adler é editora de Europa.

A Europa já esperava por essa situação.

Nos últimos dias, líderes europeus monitoraram o aumento militar dos EUA no Oriente Médio e as advertências do governo de Donald Trump a Teerã: desistir de suas ambições nucleares ou enfrentar consequências.

Contudo, após os ataques dos EUA e de Israel contra o Irã, o continente aparenta uma descoordenação alarmante, demonstrando falta de influência no desenrolar dos acontecimentos.

Cada nação europeia se preocupa com seus cidadãos na região e a possível necessidade de evacuar milhares.

Além disso, os governos estão atentos ao impacto da crise no Oriente Médio sobre os preços de energia e alimentos em seus países, especialmente com o aumento recorde nos preços do gás, que atingiram níveis sem precedentes desde a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022.

Politicamente, a Europa enfrenta dificuldades para se posicionar de forma unificada.

As três potências principais — França, Alemanha e Reino Unido — emitiram uma declaração conjunta no fim de semana, alertando o Irã sobre possíveis "medidas defensivas" para neutralizar sua capacidade de lançar mísseis e drones, caso os ataques não cessem.

O Reino Unido, a pedido dos EUA, permitiu o uso de bases britânicas para ações "defensivas" contra mísseis iranianos, embora Trump tenha criticado a falta de proatividade de Londres.

A França intensificou sua presença na região após um ataque iraniano a uma base nos Emirados Árabes Unidos, enquanto a Alemanha assegurou que suas tropas estão preparadas para "medidas defensivas", mas não planejam ações adicionais.

Curiosamente, os três países não questionaram a legalidade das operações conjuntas dos EUA e de Israel sob o direito internacional.

A falta de questionamentos à Washington também foi notável nas declarações da chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas.

Uma preocupação central para os líderes europeus é não antagonizar Donald Trump.

Eles temem que a situação no Oriente Médio desvie a atenção do presidente americano, dificultando sua busca por uma solução duradoura para o conflito na Ucrânia.

Entretanto, a posição ambígua das principais potências europeias em relação à legalidade das ações dos EUA, seja no Irã ou na Venezuela, pode complicar ainda mais a situação.

Os líderes frequentemente proclamam que a Europa defende valores comuns e uma ordem internacional baseada em regras. Mas quais são essas regras exatamente?

O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, expressou sua clareza de posição nas redes sociais, afirmando que é possível ser contra um regime opressivo, como o iraniano, e, ao mesmo tempo, contra intervenções militares injustificáveis fora do direito internacional.

Na segunda-feira, diversas aeronaves americanas deixaram a Espanha, após Madri afirmar que suas bases não poderiam ser utilizadas para ataques ao Irã.

Essa recusa resultou no anúncio de Trump de que cortaria todo o comércio com a Espanha.

Enquanto isso, a União Europeia parece cada vez mais desarticulada.

Uma declaração conjunta dos ministros das Relações Exteriores evitou apoiar a mudança de regime no Irã, enquanto a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, defendeu essa ideia em uma publicação nas redes sociais.

Essa situação evidencia a falta de unidade.

Ainda assim, a ambição das nações europeias, tanto dentro quanto fora da UE, incluindo o Reino Unido, é de trabalhar de forma mais coordenada em áreas de interesse comum, especialmente em segurança e defesa.

Mas a pergunta permanece: os países europeus conseguem realmente cumprir essa meta?

O ano de 2026 tem sido repleto de desafios: Venezuela, Groenlândia e Irã.

A Europa enfrenta uma Rússia expansionista, uma China economicamente agressiva e um aliado cada vez mais imprevisível em Washington.

Na segunda-feira, Emmanuel Macron anunciou mudanças na doutrina nuclear da França, com o aumento de ogivas nucleares, justificando que "nossos concorrentes evoluíram, assim como nossos parceiros".

A Rússia possui o maior arsenal nuclear, enquanto a China expande suas capacidades rapidamente. Embora os EUA tenham oferecido um "guarda-chuva nuclear" à Europa, as mudanças de prioridades em Washington geraram apreensão entre os europeus.

Suécia, Alemanha e Polônia buscaram proteção europeia mais ampla, além da já garantida pela OTAN, com o Reino Unido, a única outra potência nuclear do continente.

Macron agora pode afirmar que "avisou", após anos defendendo que a Europa precisaria de maior autonomia estratégica em defesa, incluindo investimentos no setor espacial.

Entretanto, a coordenação entre os países continua sendo um desafio significativo.

A aquisição de armamentos é um exemplo claro. Enquanto os EUA utilizam cerca de 30 sistemas de armas, a Europa tem 178, frequentemente duplicados.

"Ineficiente, caro e lento", foi a conclusão direta da presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola.

A OTAN tenta resolver esse problema gerenciando as decisões de aquisição entre seus 32 membros, mas as diretrizes são apenas voluntárias.

Todos os membros da OTAN (exceto a Espanha) cederam à pressão de Trump e concordaram em aumentar os gastos com defesa.

Entretanto, garantir que esses recursos sejam usados eficientemente é tão importante quanto aumentar o orçamento.

O instinto de muitos governos é proteger suas indústrias de defesa, mesmo que isso prejudique os vizinhos, e a França frequentemente é alvo de críticas nesse sentido.

Prioridades moldadas por história

À medida que a situação no Oriente Médio evolui, fica evidente que cada país europeu possui suas próprias prioridades e fragilidades, influenciadas por sua história e pela vontade de seus eleitores.

A Alemanha, por exemplo, deixou claro que não pretende aumentar sua presença militar no Oriente Médio, refletindo a forte aversão da sociedade alemã a conflitos armados, em grande parte devido ao seu passado.

Vale lembrar como a Alemanha foi criticada por demorar a enviar tanques à Ucrânia após a invasão russa.

O então chanceler, Olaf Scholz, recebeu o apelido de "Friedenskanzler" (chanceler da paz) da imprensa, refletindo o desconforto da sociedade com a ideia de usar armamentos alemães novamente.

O novo governo de Friedrich Merz está seguindo um caminho diferente, e a Alemanha se tornou o maior doador individual de ajuda militar à Ucrânia.

Assim como o resto da Europa, a Alemanha contou com os EUA para sua segurança durante décadas.

Porém, com Trump insistindo que a Europa assuma mais responsabilidade por sua defesa, Berlim planeja gastar mais até 2029 do que França e Reino Unido juntos, segundo


← Voltar para as notícias