Por que o governo espanhol atraiu a ira de Trump com decisão sobre uso de bases para ataques contra o Irã
Motivos da Reação de Trump ao Governo Espanhol
Crédito, Jonathan Raa/NurPhoto via Getty Images
Autor, Alicia Hernández, BBC News Mundo
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, decidiu cortar o comércio com a Espanha após o premiê Pedro Sánchez negar a autorização para o uso de bases militares americanas em território espanhol para ataques contra o Irã.
"A Espanha tem sido terrível", afirmou Trump. "Vamos suspender todo o comércio com a Espanha. Não queremos ter nada a ver com a Espanha."
Após essas declarações, o governo espanhol respondeu que, se os EUA desejam alterar sua relação comercial, "deverão respeitar a autonomia das empresas privadas, a legalidade internacional e os acordos bilaterais entre a União Europeia e os EUA".
A administração de Sánchez destacou que a Espanha é um "membro fundamental da Otan" e cumpre seus compromissos, contribuindo de maneira significativa para a defesa do território europeu.
"Além disso, somos uma potência exportadora da União Europeia e um parceiro comercial confiável de 195 países, incluindo os EUA, com os quais mantemos uma relação comercial histórica e mutuamente benéfica", acrescentou.
Na quarta-feira, em um pronunciamento, Sánchez declarou que a posição do governo pode ser resumida na frase "não à guerra".
Ele também enfatizou que os "erros do passado" não devem se repetir, referindo-se à invasão do Iraque em 2003, que, segundo ele, não atingiu seus objetivos e agravou a insegurança e a qualidade de vida de muitas pessoas.
Sánchez alertou que os ataques ao Irã podem ter impactos econômicos severos para milhões de pessoas e mencionou que o governo está considerando medidas para enfrentar essa situação.
Os EUA mantêm duas bases na Espanha: a base aérea de Morón de la Frontera e a base naval de Rota, ambas na Andaluzia, onde estão aproximadamente 8 mil militares.
O governo espanhol enfatizou que a ofensiva contra o Irã não está prevista no acordo que regula a cooperação militar entre os dois países e, por isso, não autorizou o uso das bases americanas.
"As bases não são e nem serão usadas para nada que não esteja dentro do acordo [de Cooperação para a Defesa] e de acordo com a Carta das Nações Unidas", declarou na segunda-feira o ministro das Relações Exteriores da Espanha, José Manuel Albares.
A ministra da Defesa, Margarita Robles, também sublinhou que esse tipo de "ação" requer "amparo internacional" e que a ofensiva contra o Irã carece desse "marco de legalidade internacional", já que EUA e Israel atuam de forma unilateral.
Sánchez afirmou que os "dois países atacaram o Irã unilateralmente, sem contar com a comunidade internacional".
No dia seguinte, foi informado que os EUA transferiram cerca de dez aviões de reabastecimento em voo KC-135 Stratotanker das bases na Espanha para outras instalações militares na Europa.
Esses aviões são essenciais para operações aéreas de longa distância, permitindo reabastecer caças e bombardeiros em pleno voo.
Fundamentação da Decisão Espanhola
As bases militares americanas na Espanha são estratégicas, localizadas no sul da península Ibérica.
A base de Morón é uma base aérea, enquanto a de Rota é uma instalação conjunta onde a Marinha dos EUA opera com a Otan e as forças espanholas.
Essas bases têm origem em um acordo conhecido como Pactos de Madri, firmado em 1953 entre o então presidente americano, Dwight D. Eisenhower, e o ditador Francisco Franco.
Desde então, os acordos têm sido renovados.
O Convênio Bilateral de Cooperação para a Defesa de 1988 exige autorização espanhola para que os EUA utilizem as bases em operações específicas.
Isso inclui missões de trânsito e reabastecimento de aeronaves, que devem se enquadrar nos objetivos do acordo e contar com a correspondente autorização espanhola.
Sánchez caracterizou a intervenção militar dos EUA e de Israel no Irã como "injustificada, perigosa e fora do direito internacional", embora tenha reconhecido que isso não é incompatível com "ser contra um regime odioso como o iraniano".
Ana Salazar, cientista política e presidente da Associação de Comunicação Política da Espanha (Acop), explica que essa é a "interpretação jurídica" do Estado espanhol, onde uma operação militar sem respaldo do Conselho de Segurança da ONU exige uma autorização expressa, que não foi concedida neste caso.
Salazar também observa que, no contexto de acordos bilaterais, cada país da União Europeia tem suas próprias condições jurídicas e políticas, resultando em respostas diferentes.
"A situação não é uma fratura europeia, mas uma consequência de arquiteturas legais distintas."
A Espanha se destacou como o país da União Europeia que adotou uma postura mais firme contra a ofensiva dos EUA e de Israel no Irã.
Entretanto, o governo de Sánchez convocou o embaixador iraniano na Espanha para expressar a "condenação a todos os ataques que estão sendo realizados contra praticamente todos os países do Oriente Médio", medida que não foi tomada em relação aos representantes dos EUA e de Israel.
Aspectos Políticos da Decisão Espanhola
Além das questões jurídicas, há outros fatores que influenciam a posição do governo espanhol.
"O primeiro é que eles podem fazê-lo. Isso não é um motivo menor", analisa Javier Martín Merchán, professor de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade Pontifícia de Comillas.
Martín também menciona fatores de política interna, destacando que "nem ao governo nem a seus aliados parlamentares interessa adotar uma postura de conivência com o governo Trump". A sociedade espanhola, de modo geral, tende a se opor a qualquer decisão que envolva participação em conflitos bélicos.
Este não é o primeiro desentendimento entre Sánchez e Trump desde o retorno do republicano à Casa Branca no ano passado.
Em junho, Trump ameaçou represálias comerciais após o governo de Sánchez recusar aumentar os gastos em defesa para 5% do Produto Interno Bruto (PIB), como outros países da Otan.
Recentemente, no dia em que os ataques ao Irã começaram, Sánchez alertou sobre as consequências do uso da força além da legalidade internacional e criticou a violação de direitos humanos em várias regiões.
Diante desse cenário, Salazar acredita que a política internacional tem funcionado bem para Sánchez, tanto no espaço parlamentar quanto no eleitoral.
Por outro lado, Salazar vê o cenário internacional como uma oportunidade para que Sánchez reforce seu perfil multilateralista e se projete como um ator relevante em Bruxelas.
Mart
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