População dificilmente conseguirá tomar poder no Irã, diz Vitelio Brustolin
Análise sobre a situação no Irã após a morte de Khamenei
A morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, em um ataque atribuído a Israel, não deve resultar na queda do regime teocrático, mesmo com o incentivo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para que a população se manifeste contra o governo. Essa é a avaliação do professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador de Harvard, Vitelio Brustolin.
O especialista ressalta que a Guarda Revolucionária Islâmica mantém o monopólio da força no país, o que torna improvável que movimentos populares consigam derrubar o sistema político vigente. Brustolin explica que "sem milícias armadas, a população tem poucas chances de tomar o poder, como é o desejo expresso de Netanyahu e Trump".
O impacto da morte de Khamenei
A mídia iraniana já confirmou a morte de um general e de um conselheiro próximo a Khamenei, e o país declarou 40 dias de luto nacional em resposta ao ocorrido.
Ataques israelenses e a estratégia militar
Brustolin detalhou as fases do ataque israelense ao Irã, que iniciou com uma tentativa de criar uma "cegueira estratégica" por meio de ataques cibernéticos e destruição de radares e sistemas de comunicação. Ele observou que o Irã já contava com defesas aéreas debilitadas, devido à destruição de equipamentos na guerra de doze dias do ano passado.
A primeira fase dos ataques visa destruir mísseis e alvos estratégicos, incluindo Khamenei e líderes da Guarda Revolucionária. A próxima fase busca estabelecer a supremacia aérea, com Israel dominando os céus do Oriente Médio com seus F-35, enquanto os Estados Unidos enviaram aeronaves F-35 e F-22 para a região.
Capacidade de resposta iraniana
Apesar dos ataques, o Irã ainda possui uma capacidade de retaliação significativa. Brustolin apontou que, segundo relatórios de inteligência, o país tem em estoque cerca de 3 mil mísseis, sendo aproximadamente 2 mil mísseis de cruzeiro. "Embora os Estados Unidos e Israel estejam destruindo esses arsenais, o Irã ainda possui meios de resposta", afirmou.
Além dos mísseis, o professor mencionou a existência de drones e minas navais que podem ser posicionadas no Estreito de Hormuz. A eficácia da resposta, no entanto, dependerá de quem assumirá o comando do país após a morte de Khamenei. Brustolin enfatizou que "a questão é quem está governando o Irã, pois a Guarda Revolucionária Islâmica precisa assumir o poder".
Cenários futuros
Brustolin indicou que algumas questões que Estados Unidos e Israel buscavam negociar com o Irã estão sendo abordadas por meio da força, como o programa nuclear e o programa de mísseis. Ele observou que um terceiro ponto, relacionado ao financiamento de grupos terroristas, ainda precisa ser discutido.
O professor acredita que, após a destruição da cadeia de comando, essa questão pode ser aberta para negociação. Contudo, ele adverte que o orgulho do regime iraniano pode prolongar o conflito: "O orgulho do regime pode levá-los a continuar a guerra, pois não teriam apoio popular se não o fizessem".
Quanto ao apoio internacional ao Irã, Brustolin sugere que será limitado a ações diplomáticas. "A China e a Rússia não devem intervir militarmente, como demonstraram no passado. Embora se posicionem a favor do Irã na ONU, é improvável que realizem intervenções além de exercícios militares conjuntos, como já ocorreu recentemente".
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