Órbita da Terra pode virar palco de uma catástrofe com o lançamento de milhões de satélites
O futuro da órbita terrestre sob ameaça com o aumento no lançamento de satélites
Os impactos culturais, espirituais e, principalmente, ambientais estão sendo negligenciados nos projetos de lançamento de milhares de satélites.
Os especialistas Gregory Radisic, do Centre for Space, Cyberspace and Data Law na Bond University, e Samantha Lawler, professora associada de astronomia na University of Regina, destacam a situação em um artigo publicado originalmente no site The Conversation.
Em 30 de janeiro de 2026, a SpaceX solicitou à Comissão Federal de Comunicações dos EUA autorização para lançar uma megaconstelação de até um milhão de satélites para apoiar centros de dados no espaço.
A proposta inclui satélites operando entre 500 e 2.000 quilômetros na baixa órbita terrestre, com algumas órbitas projetadas para exposição quase constante à luz solar. O público pode enviar comentários à comissão sobre essa proposta.
O pedido da SpaceX é apenas o mais recente em uma série de propostas para megaconstelações de satélites, que aumentam exponencialmente. Esses satélites têm um ciclo de vida curto, aproximadamente cinco anos.
Em fevereiro de 2026, havia cerca de 14.000 satélites ativos em órbita, com outros 1,23 milhão de projetos em diferentes estágios de desenvolvimento.
O processo de aprovação se concentra quase exclusivamente nas informações técnicas limitadas que as empresas devem fornecer aos reguladores, sem considerar os impactos culturais e ambientais.
Mudanças drásticas no céu noturno
Com esse crescimento, o céu noturno será permanentemente alterado para as futuras gerações.
Os satélites na baixa órbita refletem a luz solar por cerca de duas horas após o pôr do sol e antes do amanhecer. Apesar de esforços para reduzir o brilho, satélites do tamanho de caminhões de megaconstelações aparecem como pontos em movimento no céu. Projeções indicam que a poluição luminosa aumentará significativamente.
Em 2021, astrônomos estimaram que, em menos de uma década, 1 em cada 15 pontos de luz no céu noturno seria um satélite em movimento, considerando apenas os 65.000 satélites propostos na época.
Uma vez implantados em larga escala, os impactos desses satélites na visibilidade do céu podem ser irreversíveis.
Embora a vida útil média de um satélite seja de cinco anos, as empresas planejam substituições e expansões contínuas, criando uma presença industrializada no céu noturno.
Isso resulta na chamada “síndrome da linha de base móvel”, onde cada nova geração aceita um céu noturno cada vez mais comprometido. Para a primeira vez na história, as crianças de hoje não terão acesso ao mesmo céu noturno que as gerações anteriores.
Um problema em escala global
As preocupações sobre o número crescente de satélites surgem de várias fontes.
Preocupações científicas incluem reflexos brilhantes e emissões de rádio que podem afetar a astronomia. Além disso, especialistas destacam problemas de gerenciamento do tráfego espacial, já que não há um sistema unificado, semelhante ao de aviação.
As megaconstelações também elevam o risco da síndrome de Kessler, um fenômeno de colisões em cadeia. Atualmente, existem cerca de 50.000 detritos em órbita, com mais de dez centímetros.
Se as manobras para evitar colisões não forem executadas corretamente, dados recentes sugerem que uma grande colisão pode ocorrer a cada 3,8 dias.
As preocupações culturais são igualmente significativas, pois a poluição luminosa pode impactar tradições indígenas que dependem da observação do céu para práticas de navegação, caça e outras tradições espirituais.
O lançamento de tantos satélites também consome grandes quantidades de combustíveis fósseis, prejudicando a camada de ozônio. Após cumprirem sua função, os satélites são queimados na atmosfera, o que gera a preocupação com a deposição de metais na estratosfera, impactando negativamente a camada de ozônio.
Essas questões geram um dilema jurídico. Segundo a lei espacial internacional, os países são responsáveis pelos danos causados por seus objetos espaciais, levantando a questão sobre a responsabilidade de empresas e indivíduos privados.
Atualmente, as regulamentações se concentram em aspectos técnicos, como a definição de frequências de rádio, enquanto reguladores nacionais analisam a segurança dos lançamentos e os impactos ambientais na Terra.
No entanto, as regulamentações não consideram como a proliferação de satélites brilhantes afetará a pesquisa científica, a educação, a navegação e as tradições culturais.
A necessidade de uma Avaliação de Impacto do Céu Escuro
Para abordar essas questões, é fundamental implementar uma Avaliação de Impacto do Céu Escuro, como proposto pelos advogados Gregory Radisic e Natalie Gillespie.
Esse processo sistemático identificaria e documentaria todos os impactos de uma constelação de satélites proposta antes de sua implementação.
A avaliação deve incluir:
1. Reunir evidências de diversas partes interessadas, incluindo astrônomos, cientistas atmosféricos, pesquisadores ambientais e comunidades afetadas.
2. Modelar os efeitos cumulativos dos satélites, analisando como afetarão a visibilidade do céu noturno e o risco de acidentes.
3. Definir critérios claros para quando a visibilidade do céu é crucial para a ciência, educação e práticas culturais.
4. Incluir medidas de mitigação, como redução do brilho e ajustes na implantação para minimizar danos.
5. Garantir que as conclusões sejam transparentes e vinculadas às decisões de licenciamento.
Essa avaliação não impede o desenvolvimento espacial, mas esclarece as vantagens e desvantagens, aprimorando a tomada de decisões.
É essencial que as comunidades afetadas sejam informadas sobre as constelações de satélites antes da aprovação, evitando surpresas quando luzes brilhantes cruzarem seus céus.
O céu noturno já está mudando. Agora é o momento de governos e instituições internacionais estabelecerem processos justos antes que essas alterações se tornem permanentes.
← Voltar para as notícias