Opinião | Um mundo surreal
O termo surreal sempre foi utilizado para descrever situações tão fora do normal que parecem mais um sonho ou delírio do que a realidade. No entanto, a situação atual traz um surrealismo radical, que me leva a reler manchetes, pois a visão parece me enganar. Mas não é ilusão.
Comecemos pelo delírio global. Se há três anos alguém dissesse que o presidente dos Estados Unidos anunciaria uma disputa com a OTAN pela Groenlândia, seja de maneira pacífica ou militar, você acreditaria? E seria plausível imaginar que as potências europeias entrariam em histeria por aumentos nos gastos militares? Pior ainda, que várias nações entrariam em frenesi para avançar em seus programas nucleares?
Retirar um líder latino-americano do poder em sua própria região não é novidade. Contudo, a intervenção na Venezuela vai além, com Trump afirmando que tomaria os recursos minerais, como petróleo e terras raras, de forma agressiva. Tal pilhagem explícita não é vista há décadas. Essa ação foi apenas uma forma de exibir a suposta superioridade americana.
O aspecto mais surreal é observar uma sociedade que lutou intensamente pelos direitos civis, como na batalha contra o racismo, agora se entregando a um xenofobismo devastador. O xenofobismo, por sua vez, atinge até mesmo cidadãos americanos, como evidenciado pela recente morte em Minneapolis.
No campo econômico, as surpresas são igualmente notáveis. Potências como China, Índia e Brasil estão reduzindo drasticamente suas reservas em dólares e buscando ouro. O Brasil, por exemplo, vendeu US$ 61,3 bilhões em títulos do Tesouro americano.
A desmontagem institucional nos Estados Unidos sob Donald Trump não foi um acidente, mas uma estratégia. Em vez de atacar frontalmente a Constituição, houve uma corrosão diária das estruturas que sustentam o Estado. Agências reguladoras foram desmanteladas, a burocracia profissional foi vista como inimiga interna e o serviço público se tornou uma extensão da lealdade ao presidente. Nunca imaginaríamos ver isso na democracia americana, e essa é uma triste realidade para o mundo.
A temida desdolarização do comércio internacional, que os Estados Unidos temem, está ganhando força globalmente. Brasil e China, líderes no mercado de soja, estão negociando sem a moeda americana, demonstrando que o mundo está pronto para descentralizar os sistemas de pagamento e abandonar o dólar. Seriam esses sinais de um império em decadência?
Mas as surrealidades não se limitam ao exterior. No Brasil, elas se acumulam. Um exemplo recente é o debate sobre fundos públicos e privados. Políticos da oposição ao governo Lula tentam criar um clima de impeachment, alegando contabilidade criativa, seguindo a mesma estratégia utilizada contra Dilma.
Defender a aplicação correta dos recursos públicos e a cobrança de impostos é não só louvável, mas essencial. O Tribunal de Contas da União (TCU) analisou os fundos criados pela União e apontou irregularidades, exigindo que todos os recursos passassem pela conta única do Tesouro e pelo Orçamento da União, sendo apropriados para a mensuração do resultado primário, conforme a Lei 200/2023.
Embora o posicionamento do TCU seja, em geral, adequado, não se justifica o alarde em torno do tema. Essa discussão precisa de maturidade. O surreal é ver parlamentares indo ao TCU, enquanto o Congresso, com suas diversas versões de orçamento secreto, contribui mais significativamente para as dificuldades fiscais. Seria prudente que esses parlamentares olhassem para suas próprias sombras antes de se preocupar com as dos outros.
Por último, mas não menos importante, está a decisão sobre a taxa de juros no Copom. Como este artigo está sendo escrito antes da reunião, não sei se enfrentarei a provável manutenção da Selic em 15%. Contudo, a pressão, vinda de vários agentes de mercado e do governo, para manter a Selic nesse patamar já é um caso de assédio moral ao País.
Não importa que o IPCA de 2025 tenha se mantido no teto da meta de inflação, alcançando 4,26%. Também não importa que a expectativa dos agentes, conforme o Focus, seja de IPCA de 4% para 2026. A taxa de câmbio está em um nível favorável, mas a autoridade monetária, que nem percebeu que o Banco Master criava liquidez sem limites, insiste em manter uma taxa real de juros acima de 10% ao ano.
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