Opinião | O Brasil entre a barbárie e a civilização
A situação atual do Brasil é marcada por uma tensão extrema, representando um momento de grande risco para a democracia. Este cenário é inédito para um país que se recuperou do fim da ditadura. Os anos em que o PSDB governou e o primeiro mandato de Lula, até a crise do mensalão, revelaram instituições sólidas. Embora crises tenham surgido, havia um foco na construção democrática para o futuro.
Desde então, o Brasil perdeu seu direcionamento. As disputas políticas tornaram-se cada vez mais polarizadas, e uma força política de centro, com uma proposta econômica e social clara, deixou de existir. Os partidos políticos hoje parecem mais agrupamentos de oportunidades do que representações de visões sobre o país.
O Congresso Nacional destaca-se como um sinal da deterioração institucional. A prioridade deixou de ser legislar em prol dos interesses nacionais, passando a se concentrar em proteger um grupo golpista, por meio de propostas como a anistia. A PEC da Blindagem também ganhou destaque, dificultando a atuação do Poder Judiciário na fiscalização dos parlamentares em relação à legislação.
O que se observa no Congresso é um espetáculo de horrores. Um deputado, atuando do exterior, quase se torna líder da Minoria ao orientar outro país a prejudicar empresas e empregos brasileiros. As Mesas Diretoras são ocupadas por tumultos, enquanto bilhões em emendas parlamentares são alocadas sem avaliação da sua eficácia, levantando questões sobre a moralidade desses gastos.
Recentes manifestações contra a direita e oportunistas trouxeram uma esperança de que os absurdos não se concretizem.
No Executivo, a situação é igualmente alarmante. A administração enfrenta dificuldades operacionais há tempos, e o governo de Lula busca uma identidade eleitoral para 2026. Embora figuras como Donald Trump e Eduardo Bolsonaro tenham posicionado Lula como defensor da soberania, a necessidade de reuniões para cobrar de ministros a defesa do governo sinaliza problemas sérios.
Além disso, o quadro político dificulta a implementação de uma política fiscal eficaz. O Banco Central (BC), ultrapassando seu papel de gestor da política monetária, se posiciona como defensor da governabilidade, defendendo juros elevados. Com a Selic em 15% ao ano, o BC adota um receituário que pouco reflete a realidade econômica.
O discurso de “prudência monetária” contrasta com a prática do BC, que, semelhante aos políticos que critica, não explica suas razões para manter a taxa de juros real em 9,51%, enquanto a inflação cai e sinais de recuperação econômica emergem. Para preservar sua independência, o BC precisa justificar suas decisões.
Esse desvirtuamento do papel do Banco Central, a autodefesa no Congresso e a paralisia do Executivo esboçam um quadro de desmanche institucional. Não se trata apenas de ineficiência ou escolhas equivocadas, mas da capacidade do Brasil de manter um ambiente democrático, com regras claras e instituições respeitadas.
Os problemas não são recentes, mas a combinação atual é explosiva: juros altos que inviabilizam o crescimento, um Congresso autocentrado e um Executivo hesitante. Essa convergência mina a confiança nas instituições e aprofunda a descrença na democracia.
O desmanche institucional não ocorre de forma abrupta, mas por erosão contínua. O edifício democrático é corroído lentamente: decisões monetárias desconectadas da realidade, projetos de autoproteção legislativa e omissões do Executivo fragilizam as bases de confiança e legitimidade, levando o país a um ciclo de paralisia e descrédito.
O Brasil avança perigosamente nessa direção. A manutenção de juros impraticáveis, a relativização de crimes contra a ordem democrática e a incapacidade de governar compõem um cenário que, se não revertido, comprometerá seriamente o futuro do país. A voz das ruas, nas manifestações recentes, pode ter sido um momento crucial para recuperar a civilização e rejeitar a barbárie.
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