O vazio informacional e o risco reputacional. A comunicação como ferramenta de esclarecimento
Darlan Santos
Diretor Presidente do CERNE
Nos últimos anos, o Rio Grande do Norte se destacou como um importante centro na transição energética do Brasil. No entanto, o setor eólico enfrenta um paradoxo: enquanto a geração de energia atinge recordes, surgem questionamentos sobre seu impacto social. O otimismo inicial, que prometia benefícios econômicos e socioambientais, deu lugar a incertezas em relação aos efeitos desses projetos nas comunidades locais.
Esse cenário não é acidental. A falta de dados consistentes sobre iniciativas sociais e a ineficiência na comunicação, tanto por parte das empresas quanto do governo, criaram um "vazio informacional". Essa lacuna permitiu que a percepção predominante fosse a de que o setor não está entregando os resultados esperados nas áreas ao redor dos parques eólicos. Quando as informações oficiais são escassas, narrativas fragmentadas e, muitas vezes, equivocadas ocupam esse espaço.
A importância do tema é confirmada por dados. Levantamentos na mídia do estado revelam mais de 3.600 matérias sobre o setor entre 2009 e 2026. Entretanto, o conteúdo dessas publicações mudou drasticamente. Nos últimos anos, a ênfase passou do investimento significativo para questões como conflitos coletivos e impactos na saúde das populações locais. Sem informações concretas sobre contrapartidas, o risco reputacional se torna uma ameaça à continuidade do crescimento das energias renováveis no estado.
Para mudar essa situação e fundamentar o debate em evidências, o Rio Grande do Norte está se tornando o cenário de uma iniciativa inédita no Brasil. Um estudo piloto, liderado pelo Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (CERNE) e pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS), com apoio do IDEMA, está reunindo informações sobre projetos de compensação socioambiental e econômica no estado. O objetivo é criar um diagnóstico real, deslocando a discussão do campo das opiniões para o dos dados.
Esse levantamento servirá de base para o Observatório Socioambiental do Setor Renovável do Rio Grande do Norte. A ferramenta visa garantir total transparência não apenas para empresas e órgãos licenciadores, mas, principalmente, para a sociedade. Através de consultas diretas com as comunidades, o Observatório poderá identificar o que realmente funciona. Mais do que celebrar sucessos, a plataforma terá a capacidade de diagnosticar falhas em ações que não geraram resultados positivos, promovendo um aprendizado institucional contínuo.
O resultado desse esforço será a reformulação das orientações dos programas de compensação, tornando as parcerias entre empresas e comunidades mais eficazes e passíveis de fiscalização. O setor de energia renovável é um dos pilares da economia local e possui um compromisso intrínseco com a sustentabilidade. A colaboração entre o Rio Grande do Norte e o setor produtivo é estratégica e não deve ser prejudicada pela falta de diálogo.
Somente um esclarecimento completo das ações realizadas, sustentado em dados auditáveis e transparentes, poderá restaurar a confiança necessária para que o estado continue a liderar a economia verde no Brasil. O Observatório não é apenas uma ferramenta de gestão; representa um compromisso com a transparência e o desenvolvimento justo.
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