O que SP aprendeu com Tiririca: da candidatura ousada ao mandato estéril
Cientista político e doutorando pelo Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE), com foco em comportamento político e mudanças constitucionais, é fundador da Metapolítica, consultoria reconhecida com o Oscar da Comunicação Política Mundial em 2020 pela The Washington Academy of Political Arts Sciences. Em 2021, foi indicado como Consultor Político Revelação pela mesma instituição.
Colunista do portal ICL Notícias, analisa questões políticas e institucionais, enfatizando a governança e a relação entre o Legislativo e o Executivo.
Em 6 de novembro de 2025, Tiririca anunciou em seu Instagram que deixaria São Paulo e se filiaria ao PSD para disputar uma vaga de deputado federal pelo Ceará. O vídeo, curto e direto, revelou: “Agora é sem palhaçada, estou voltando pra (sic) minha terra”. Essa notícia circulou rapidamente, mas a mudança não se resume apenas à troca de partido ou ao retorno ao estado natal. São Paulo novamente se transforma em um trampolim para carreiras eleitorais.
Um padrão de candidatos busca em São Paulo uma vantagem estratégica, não apenas em termos de votos, mas também de visibilidade nacional. O estado atua como uma vitrine que amplifica figuras políticas e permite que subcelebridades ou políticos já conhecidos projetem trajetórias que vão além da representação local.
Esse fenômeno gera um contraste: o eleitor espera ser representado, enquanto o candidato pode priorizar a construção de uma marca nacional. A lógica é simples: quanto maior o colégio eleitoral, maior o potencial de exposição e "arrasto" no sistema proporcional brasileiro.
Não é à toa que o casal Moro escolheu São Paulo em 2022 — Rosângela concorrendo à Câmara, e Sergio inicialmente tentando a Presidência pelo estado, antes de mudar de rota devido a controvérsias documentais. Ambos exemplificam como “passar por SP” se torna, em certos momentos, parte do projeto político.
O caso de Tiririca se destaca nesse contexto. Seu desempenho em 2010 não só garantiu sua eleição, mas também abriu vagas para outros candidatos, como Otoniel Lima (PRB), Vanderlei Siraque (PT) e Protógenes Queiroz (PCdoB), remodelando a lista de eleitos.
Analisando a trajetória de Tiririca em São Paulo (TSE), é possível observar um declínio contínuo que altera seu cálculo político. Em seu auge, foi o deputado federal mais votado do país, mas a perda de quase 340 mil votos indica um desgaste da imagem inicial, apesar de ainda ultrapassar a marca de 1 milhão.
A queda se acentua, em parte devido ao desgaste do discurso de “renovação” associado a celebridades e ao cansaço do eleitor com figuras midiáticas que entregam pouco no Legislativo.
O ponto culminante: ele se torna o deputado menos votado entre os eleitos de SP, chegando à Câmara em 2023 devido ao desempenho do Bolsonarismo paulista, especialmente Eduardo Bolsonaro e Carla Zambelli, que aumentaram o quociente do seu partido (PL) naquele ano.
Após três eleições consecutivas, a figura extravagante de Tiririca perdeu força quando São Paulo e o país entraram em uma lógica de radicalização guiada pelo bolsonarismo. Seu humor, antes um diferencial, passou a parecer deslocado em campanhas cada vez mais agressivas.
A migração para o Ceará não é apenas uma questão biográfica, mas também estratégica. Embora haja um elemento emocional em seu retorno ao nordeste, é simplista reduzir essa mudança a um gesto sentimental. O espaço que ocupava em São Paulo tornou-se estreito, e, sem capital eleitoral robusto, o antigo puxador de votos se tornou puxado, alterando completamente o potencial de sua carreira política.
No Ceará, ele chega com uma marca ainda reconhecível, sem competir diretamente com subcelebridades de direita e sem a saturação do cenário paulista. O “teste real” será observar se sua figura ressoa no voto local, onde vínculos territoriais têm mais peso que bordões nacionais.
Esse é o primeiro movimento em mais de uma década em que Tiririca deixa de lado a vitrine paulistana e busca algo mais alinhado com suas origens. No entanto, essa mudança não é isolada.
Comparações rápidas: Rosângela Moro e Sergio Moro exemplificam um padrão semelhante. Rosângela foi eleita deputada federal por SP em 2022 e tentou um projeto local malsucedido em Curitiba como candidata a vice-prefeita. Sergio, por sua vez, tentou transferir seu domicílio para SP em 2022 como candidato à Presidência, mas acabou retornando ao Paraná para disputar e vencer a cadeira do Senado.
Esses casos evidenciam que o eleitor paulista, em diferentes momentos, foi utilizado por estratégias eleitorais que priorizaram candidatos com pouca conexão real com suas necessidades. A vitrine paulista serviu mais como plataforma de projetos nacionais do que como um compromisso com o território.
A trajetória de Tiririca em Brasília também levanta a questão sobre o que São Paulo recebeu em troca desses anos de exposição. Embora tenha construído uma carreira com campanhas criativas e bem-humoradas, seu desempenho legislativo foi modesto, com apenas 12 proposições de janeiro de 2023 a novembro de 2025.
Sua emotiva “despedida” no Plenário em 2017 repercutiu bem, mas o retorno trouxe votos polêmicos e silêncios prolongados. Esse desempenho discreto, contrastado com seu capital simbólico inicial imenso, destaca a importância da responsabilidade local.
O caso Tiririca demonstra que São Paulo é grande demais para ser apenas um trampolim de carreiras nacionais e diverso demais para depender de subcelebridades que mudam de domicílio conforme o vento eleitoral. O voto é um contrato local que exige permanência e compromisso.
O movimento para o Ceará não é um problema em si, mas parte das regras democráticas. Em 2026, a pergunta voltará: que tipo de candidato você deseja? O engraçado ou aquele que se empenha em representar suas bandeiras?
E, por fim, a provocação: se o endereço eleitoral muda com o vento, que âncora mantém o mandato ligado ao chão de quem vota?
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