O que é o gabinete do ódio, que virou alvo da CPMI das ...
O que é o "gabinete do ódio" e sua relação com a CPMI das Fake News
O terceiro andar do Palácio do Planalto se tornou foco das investigações da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) das Fake News, que atua no Congresso Nacional. Nos próximos dias, a comissão deverá solicitar acesso aos IPs e dados dos computadores utilizados pelos servidores que fazem parte do chamado "gabinete do ódio", grupo que opera no mesmo andar onde Jair Bolsonaro despacha diariamente.
O termo "gabinete do ódio" é como integrantes do governo se referem a um grupo composto por três servidores próximos ao vereador Carlos Bolsonaro (PSC), filho "02" do presidente. Os assessores Tércio Arnaud Tomaz, José Matheus Sales Gomes e Mateus Matos Diniz produzem relatórios diários sobre eventos nacionais e internacionais, além de gerenciarem as redes sociais da Presidência da República.
A decisão de requisitar acesso aos dados dos computadores desses servidores surgiu após o depoimento da deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), ex-líder do governo no Congresso, que, na quarta-feira (4), acusou os assessores do presidente de disseminar notícias falsas durante o horário de trabalho.
"Vamos pedir a quebra dos IPs para localizar as máquinas. Se houver requerimento e provas concretas da existência de um computador no Palácio do Planalto dedicado à divulgação, ele pode ser quebrado. Sem provas, não podemos agir. Mas, obtendo evidências, vamos prosseguir", declarou o presidente da CPI, Angelo Coronel (PSD-BA).
A CPI também investigará se há utilização de recursos públicos para financiar a disseminação de notícias falsas a partir do Palácio do Planalto. "Certamente, vamos buscar saber se dinheiro público está sendo utilizado para essa prática. Se confirmarmos, indiciaremos os responsáveis e encaminharemos ao Ministério Público Federal", afirmou.
Joice Hasselmann mencionou que o "gabinete do ódio" ainda conta com o assessor especial Filipe Martins, próximo ao deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho "03" do presidente. Segundo a ex-aliada do Planalto, o grupo é um dos principais propagadores de desinformação. "Estou expondo o modus operandi, mostrando pessoas que recebem dinheiro público para atacar indivíduos", disse durante seu depoimento.
Após o testemunho de Joice, técnicos do Ministério Público Federal (MPF), da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e da própria CPI iniciarão uma nova fase de coleta de provas e investigações a partir das informações fornecidas pela deputada. "Vamos lutar para erradicar fake news e perfis falsos. Não podemos permitir que perfis falsos sejam criados para atacar pessoas. Precisamos fortalecer a democracia", enfatizou Coronel.
A sessão em que Joice foi ouvida durou mais de dez horas e foi marcada por intensos debates e trocas de acusações entre os grupos do PSL. Todos os funcionários do "gabinete do ódio" foram convocados para depor, mas ainda não há uma data definida para isso.
Joice afirmou que um único disparo de mensagens por robôs custa, em média, R$ 20 mil. "De forma legal e comprovável, cerca de R$ 500 mil de dinheiro público são utilizados para perseguir adversários. Essa é a função do 'gabinete do ódio'. Estamos tratando de crimes previstos no Código Penal", denunciou a parlamentar, que também foi alvo de ataques.
Embora não soubesse a origem dos financiamentos, Joice sugeriu que a comissão "siga o rastro do dinheiro" porque se trata de milhões. Ela alegou que muitas das fake news e campanhas difamatórias têm origem em gabinetes de políticos aliados do governo.
A ex-líder também acusou Eduardo e Carlos Bolsonaro de direcionarem as ações do "gabinete do ódio". Outro influente associado ao grupo seria Olavo de Carvalho. "Espero que o presidente não esteja ciente disso", observou.
Ela ainda apontou que o próprio presidente tem publicações impulsionadas por robôs, com quase 2 milhões de robôs seguindo seus perfis, sendo 1,4 milhão no perfil de Jair Bolsonaro e 468 mil no de Eduardo Bolsonaro. Esses números foram obtidos através de um aplicativo que analisa a veracidade dos perfis no Twitter.
Em resposta às investigações durante uma visita a uma feira popular em Brasília, o presidente disse não temer os resultados da CPI. "Inventaram o 'gabinete do ódio' e alguns idiotas acreditaram. Outros idiotas vão até prestar depoimento", afirmou, referindo-se a Joice.
O Palácio do Planalto não se pronunciou sobre a intenção da CPI de acessar informações dos computadores dos funcionários da Presidência.
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