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O que aconteceu com a Hollywood brasileira?

Há 20 anos, Paulínia, localizada no interior de São Paulo, fez um investimento milionário para se tornar um polo cinematográfico. Atualmente, a maior parte desse projeto está abandonada.

Nos anos 2000, a cidade idealizou um plano ousado. Inicialmente, a Prefeitura ofereceu exibições gratuitas de filmes em DVD. Em seguida, surgiram cursos livres de cinema e teatro, além de mostras e palestras com diretores renomados, acompanhadas de diversas construções.

Um supermercado foi transformado em estúdio de cinema. Em frente à nova Prefeitura, um cubo de vidro foi erguido em um lote de 12 mil m², com uma fachada que incluía seis pilares clássicos, solicitados pelo prefeito. Acima da imponente entrada, um letreiro em estilo romano dizia: “Theatro Municipal de Paulínia”.

A cidade, a 20 km de Campinas e a 117 km de São Paulo, tinha 80 mil habitantes na época (atualmente, são 116 mil). Paulínia abriga a Replan, a maior refinaria de petróleo do Brasil, o que contribui para seu elevado PIB per capita, o quarto maior do país. Em termos absolutos, sua riqueza supera a de 17 capitais.

O teatro, voltado para exibições cinematográficas, foi inaugurado em 2008. O então prefeito, Edson Moura, enfatizou a necessidade de diversificar a economia municipal e se preparar para o futuro sem petróleo. Embora muitos países ainda resistam à transição energética, essa ideia era audaciosa para a época.

Foram gastos R$ 89 milhões na construção do teatro (equivalente a R$ 281 milhões hoje) e outros milhões em estúdios, festivais, cursos e editais de financiamento.

Na noite de inauguração, celebridades do cinema e da TV brasileira desfilaram pelo tapete vermelho. O ambiente do teatro encantava, com 1.300 lugares e uma acústica considerada uma das melhores da América Latina. A mestre de cerimônias, Fernanda Montenegro, afirmou: “Uma cidade sem teatro não é cidade. Paulínia é Paulínia a partir deste teatro”.

Infelizmente, esse impulso inicial não se sustentou. Paulínia chegou a ser chamada de “Hollywood brasileira” ou “Pauliwood”, mas sua trajetória foi efêmera. A cidade foi palco de filmes famosos e estreias memoráveis, mas rapidamente perdeu seu destaque.

Em julho de 2011, durante o 4º Festival Paulínia de Cinema, duas mil pessoas se aglomeraram em frente ao teatro para a estreia de O Palhaço, longa de Selton Mello, filmado em grande parte na cidade. A demanda foi tanta que uma sessão extra foi anunciada.

Selton Mello expressou sua empolgação: “Foi a melhor sessão de cinema da minha vida”. O cineasta Fernando Meirelles também elogiou a cidade, afirmando que parecia um “outro Brasil”, enquanto o ator Rodrigo Santoro destacou a singularidade do teatro.

A acústica do local foi projetada pelo mesmo escritório que criou a Sala São Paulo, uma das mais modernas do mundo. O som era da THX, famosa pela qualidade de áudio.

Quatro estúdios de gravação e um grande estúdio de animação foram construídos, atraindo profissionais do setor que acreditavam no potencial da região.

Os festivais anuais premiavam filmes selecionados por um comitê independente, com prêmios em dinheiro que incentivavam a produção local. A prefeitura destinou R$ 9 milhões para o primeiro edital, um valor que, embora não financiasse um filme inteiro, ajudava a tirá-los do papel.

Os recursos provinham do Fundo Municipal de Cultura, que recebia 1,5% da arrecadação de impostos sobre mercadorias e serviços. Em 2009, esse fundo contava com R$ 15 milhões anuais, o que equivale a R$ 43 milhões hoje.

Os projetos selecionados podiam usar os estúdios, construídos através de uma parceria público-privada. A contrapartida era que as produções deveriam gastar uma parte do orçamento na cidade e filmar uma porcentagem das cenas na região.

Entretanto, a percepção dos benefícios do investimento não era imediata para muitos habitantes. Em 2012, com a troca de gestão, o novo prefeito, José Pavan Jr., anunciou a suspensão do festival e dos editais, redirecionando verba para áreas sociais como saúde e educação.

Essa decisão gerou polêmica e protestos entre cineastas e críticos, mas a gestão pública não permite mudanças repentinas nos orçamentos. A prefeitura não conseguiu esclarecer se houve realmente uma alteração de verbas na época.

Apesar do elevado PIB per capita, os indicadores de educação e saúde em Paulínia são preocupantes. As escolas públicas ocupam posições baixas em rankings estaduais, demonstrando a necessidade de atenção a essas áreas.

Entre 2009 e 2019, Paulínia passou por 16 trocas de prefeitos. Após um ano da suspensão do festival, Pavan Jr. foi afastado, e Edson Moura Jr., seu sucessor, promoveu novos festivais e editais, mas a recuperação foi breve.

Em 2015, Pavan Jr. reassumiu e encerrou definitivamente as políticas de cinema, decisão que permanece até hoje.

Embora o orçamento atual para cultura seja maior do que o de muitos municípios, os recursos são majoritariamente alocados para cursos e shows, enquanto o teatro permanece fechado e deteriorado.

A atual secretária de Cultura, Andréia Perini, afirmou que estuda formas de revitalizar o teatro, mas ainda não há planos concretos.

A experiência em Paulínia mostra que o fomento à cultura precisa ser parte de uma política de Estado mais robusta. O futuro do polo cinematográfico é incerto, mas discutir estratégias com a iniciativa privada pode ser um caminho viável para recomeçar. A cultura tem o poder de transformar realidades e movimentar a economia local, e essa é uma lição que não deve ser esquecida.


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