Nemesio Oseguera Cervantes

O México está preso entre Trump e os cartéis

Onda de violência atinge o México após a morte de líder de cartel

Nemesio Rubén Oseguera Cervantes, conhecido como “El Mencho”, era o chefe de uma das redes criminosas que mais cresciam no país.

O barão das drogas, cujo nome verdadeiro era Nemesio Oseguera Cervantes, havia conseguido escapar da captura por duas décadas, superando seus rivais El Chapo e El Mayo, e transformou seu Cartel Jalisco Nova Geração na organização criminosa mais poderosa do México.

Recentemente, sua trajetória chegou a um fim abrupto, em parte devido a um encontro romântico.

A morte de Oseguera foi um sucesso claro para as autoridades mexicanas, mas o momento revelou tensões.

Donald Trump tem exigido, de forma insistente, que as autoridades mexicanas desmantelassem os cartéis que acumulam fortunas com o tráfico de drogas. Ele ameaçou que, se isso não acontecesse, os militares dos EUA poderiam intervir.

Essas ameaças parecem estar surtindo efeito.

A presidente do México, Claudia Sheinbaum, supervisionou uma das ofensivas mais agressivas contra os cartéis em mais de uma década.

No domingo, semanas após Trump ordenar uma intervenção militar na Venezuela e alertar que o México poderia ser o próximo, Sheinbaum deu um passo ousado, autorizando as forças mexicanas a eliminar o criminoso mais procurado do país, utilizando inteligência fornecida pelos Estados Unidos.

A morte de Oseguera ilustra como a tensa interação entre Trump e Sheinbaum — dois líderes com estilos distintos, mas uma colaboração improvável — reformulou a relação entre os EUA e o México, especialmente no que diz respeito à segurança.

“A pressão que Trump colocou em sua administração tem sido uma força da qual ela se aproveitou”, afirmou Carlos Bravo Regidor, um analista político mexicano. “Ela queria mudar a segurança no México, e Trump surgiu em um momento oportuno para empurrá-la nessa direção.”

Após a morte de Oseguera, o México mobilizou 10 mil militares devido à onda de violência.

A visita de uma das namoradas de El Mencho levou a polícia a descobrir seu paradeiro.

Contudo, Bravo alertou que Sheinbaum está brincando com fogo.

“Não sei se ela queria ir tão longe”, disse. “Isso coloca a administração sob estresse, e há uma grande questão sobre a capacidade do estado mexicano para lidar com as consequências dessa operação.”

Como na mitológica Hidra, cortar a cabeça de um cartel frequentemente gera muitas outras.

A morte de Oseguera resultou em uma onda de tiroteios, incêndios criminosos e bloqueios em todo o país. Os mexicanos agora se preparam para mais violência, à medida que facções rivais disputam poder e confrontam o governo.

Esse cenário é um exemplo do impacto crescente de Trump na América Latina, com Venezuela, Cuba, Colômbia, Argentina, Honduras e outros países podendo atestar.

Em sua conferência de imprensa, Sheinbaum rebateu a ideia de que estava agindo sob pressão de Trump, chamando a especulação de “quase risível”.

Ela tem buscado estabelecer limites com Washington, enquanto a retórica de Trump sobre o México se torna um tema regular.

Na segunda-feira, Sheinbaum reafirmou os limites sobre o envolvimento americano: “Não há participação de forças dos EUA. O entendimento com os Estados Unidos se baseia principalmente na troca de inteligência.”

Ela confirmou que agências dos EUA forneceram informações para a operação contra Oseguera, e o The New York Times informou que informações cruciais vieram da C.I.A.

O secretário de defesa do México destacou a assistência das agências americanas, mas disse que a virada no caso ocorreu quando oficiais de inteligência mexicanos identificaram um associado de uma das amantes de El Mencho, que levou as autoridades ao esconderijo do líder do cartel.

É evidente que a cooperação entre os dois países melhorou. Em janeiro, militares dos EUA estabeleceram uma força-tarefa de compartilhamento de inteligência no Arizona, a cerca de 24 quilômetros da fronteira com o México. Com cerca de 300 funcionários, a força estuda os cartéis para fornecer informações às autoridades mexicanas.

De 2008 a 2023, os Estados Unidos gastaram US$ 3,6 bilhões em segurança bilateral com o México. No entanto, a colaboração nem sempre foi tão próxima. Um programa de inteligência classificado dos EUA investigou alvos de alto escalão no México, mas manteve informações longe das autoridades mexicanas, uma abordagem que foi parcialmente validada por casos de corrupção entre oficiais mexicanos.

John Feeley, um diplomata de alto escalão dos EUA no México de 2009 a 2012, afirmou que parece que a maré está mudando. “A diferença sempre foi que nunca tivemos adesão total dos mexicanos”, disse ele. Os sucessos recentes mostram que, com o México, os Estados Unidos precisavam exercer mais pressão para criar a vontade política.

As autoridades mexicanas já tentaram capturar Oseguera anteriormente. Em 2012, ele escapou quando seu cartel bloqueou estradas. Em 2015, seus homens armados derrubaram um helicóptero militar mexicano, matando três soldados.

Esses episódios ocorreram sob presidentes mais conservadores. Sob o antecessor de Sheinbaum, Andrés Manuel López Obrador, Oseguera enfrentou menos perseguição. A abordagem de “abraços, não balas” de Obrador para resolver a violência resultou em um aumento da criminalidade e prejudicou a relação de segurança entre os dois países.

Dois chefes de cartéis foram capturados sob a vigilância de Obrador. O primeiro, Ovidio Guzmán López, filho de El Chapo, foi libertado após sua captura. O segundo, Ismael Zambada García, foi preso por autoridades americanas.

Sheinbaum se mostrou uma parceira mais disposta na luta contra os cartéis.

“A questão sempre foi: Claudia vai emergir da sombra de AMLO?”, questionou Feeley. “Ela não apenas emergiu, mas elevou o nível de engajamento de segurança a um novo patamar.”

Agora que Sheinbaum eliminou o chefe de cartel mais procurado do México, será que Trump vai parar com as ameaças?

Na manhã de segunda-feira, menos de 24 horas após a maior conquista do México em sua guerra contra os cartéis em anos, Trump postou uma mensagem online: “O México deve intensificar seu esforço nos Cartéis e Drogas!”


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