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O Desemprego com Carteira Assinada

Confesso que esta é a quarta vez que quase não escrevo esta crônica. A semana trouxe muitos acontecimentos, como sempre. A conjuntura tem o hábito de interromper a história antes do final. Mas chegou o momento de abordar o trabalho. Ou melhor, como ele está desaparecendo.

Vamos analisar o que o novo capitalismo está fazendo. O primeiro impacto é no trabalho, que está sendo extinto de forma lenta e burocrática.

Durante séculos, trabalhar não era apenas uma forma de pagar as contas. Era uma forma de existir. As pessoas eram apresentadas pela profissão antes mesmo do nome. O trabalho representava identidade, posição na vida e destino.

Hoje, essa lógica começa a se desgastar. As pessoas continuam aqui; as profissões, nem sempre.

A revolução tecnológica não eliminou o trabalho de uma só vez, com estrondo e sirenes. Teria sido mais honesto se tivesse feito assim. Preferiu um método cirúrgico: esvaziou função por função, tarefa por tarefa, plataforma por plataforma. Cada nova automação veio embalada na promessa de “ganhar tempo”. E, de fato, ganhamos. O detalhe incômodo é que parte desse tempo veio com desemprego. A tecnologia não matou o trabalho abruptamente; foi retirando pedaços com a delicadeza de quem desmonta um relógio caro, sem garantir que saberá montá-lo novamente. Cada inovação prometeu eficiência e entregou. O problema é que, no capitalismo pós-humano, eficiência tem uma curiosa tendência a rimar com substituição.

A inteligência artificial já escreve relatórios, analisa dados, cria imagens, corrige códigos e até dá palestras sobre o futuro do trabalho, justamente o trabalho que ajuda, com notável eficiência, a reduzir.

O capitalismo, com seu talento histórico para transformar crises em slogans simpáticos, tratou de renomear o problema. Não há demissão: há otimização. Não há corte: há reestruturação. A empresa enxuta virou uma virtude moral. Menos gente, mais software. Menos salário, mais produtividade.

Aqui surge uma ironia quase literária: um Ford criou o trabalhador moderno; outro Ford começa a explicar sua dispensabilidade. Henry Ford inventou a linha de montagem que transformou homens em peças previsíveis. Martin Ford, um século depois, descreve um mundo que já não precisa dessas peças. O primeiro acelerou o trabalho; o segundo acelera o desemprego. O Ford do século XX encheu fábricas de operários. O do século XXI projeta fábricas que funcionarão com meia dúzia de algoritmos e um técnico de manutenção com olheiras moderadas. No meio do caminho, o capitalismo fez o que sabe fazer melhor: trocou demissão por otimização, corte por reestruturação e gente por software, tudo com a aparência de progresso inevitável.

Quem sobra ganha um novo nome: colaborador. Um eufemismo educado para designar alguém sem estabilidade, sem garantia e, muitas vezes, sem horizonte.

O trabalhador do século XXI não bate ponto; atualiza perfil. Vive numa espécie de liberdade obrigatória, onde a autonomia se resume a escolher qual algoritmo irá explorá-lo primeiro, seja iFood, Uber ou 99. Corrida, entrega, frila. O velho proletariado agora vem com a capa de startup, sem fábrica, sem direitos e com uma senha para redefinir a própria senha. A ironia maior é que nunca se trabalhou tanto e nunca se ganhou tão pouco. O trabalho invadiu o celular, o fim de semana e a madrugada, e o descanso virou quase um ato suspeito. O trabalhador contemporâneo é, ao mesmo tempo, empregado, consumidor e produto, vendendo tempo, atenção e dados ao patrão invisível. E há algo ainda mais profundo: o trabalho, por mais duro que fosse, dava sentido. Dizia quem você era, onde deveria estar e o que faria amanhã. Agora, cada indivíduo se torna uma microempresa com nome de repartição, o famoso MEI. Só que nem essa precarização está garantida: a mesma inteligência artificial que transformou o emprego em bico já começa a transformar o bico em peça de museu. E, como sempre no capitalismo, não é por justiça social, mas por eficiência operacional. O motorista de aplicativo, o entregador e o freelancer foram apenas uma etapa intermediária. O Uber sem motorista, o caixa autônomo e o chatbot que resolve sozinho indicam o próximo movimento. O precário deixou de ser solução barata. Tornou-se custo temporário.

Com a erosão das profissões, o Estado é empurrado para um papel novo e desconfortável: não o de empregador, mas o de sustentador de sobrevivências. A carteira assinada começa a dar lugar ao cadastro de benefício, como a bolsa família universal. O governo, incapaz de gerar trabalho na velocidade que a tecnologia elimina, passa a distribuir renda mínima.

E o capitalismo, sempre pragmático, descobre algo curioso: para manter o consumo, talvez precise do Estado que passou décadas tentando emagrecer.

Mas há uma ironia ainda mais refinada neste processo. A inteligência artificial começa a avançar justamente sobre quem construiu seu próprio império: os programadores. Durante décadas, foram tratados como a aristocracia técnica do capitalismo digital, verdadeiros sacerdotes do código. Enquanto outras profissões tremiam diante da automação, pareciam protegidos por uma cláusula implícita: quem constrói as máquinas não será substituído por elas. Pois bem. A cláusula começou a expirar.

As novas plataformas já escrevem código, corrigem erros, sugerem arquiteturas e montam aplicações inteiras a partir de instruções em linguagem comum. O que antes exigia anos de formação agora se resolve com um prompt bem formulado.

Confesso, em tom quase culposo: até eu, sem escrever uma linha de código nem falar fluentemente a língua das chaves e dos colchetes (sou do tempo do FORTRAN — alguém lembra disso?), já consegui montar uma plataforma e um aplicativo — que, com um pouco de sorte e um comprador distraído, ainda espero vender para ganhar algum dindim.

O programador, que passou anos aconselhando outras profissões a “se reinventarem”, começa agora a experimentar o sabor pedagógico do próprio conselho. Ainda não é extinção. Mas o desconforto já é perfeitamente mensurável.

Nada disso ainda domina completamente o presente. Mas o desenho do horizonte já é claro o suficiente para deixar qualquer otimista com a pulga atrás da orelha.

O que está em curso não é apenas uma crise de emprego. É algo mais incômodo: uma crise de sentido. Porque o trabalho, por pior que fosse, organizava a vida, dava identidade e, sobretudo, explicava por que acordávamos cedo.

Essa engrenagem começa a ranger.

Como a crônica está ficando maior do que eu esperava, deixarei para falar do fim do trabalho manual na próxima — se a conjuntura não pregar mais um susto.

Por ora, registremos apenas


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