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O carnaval mostra que bicheiro é o bandido que deu certo

O Carnaval e a Ascensão do Bicheiro

A conexão entre o carnaval e o bicheiro revela como o dinheiro ilegal se transforma em prestígio social e influência política, algo que a milícia não conseguiu replicar.

A frase “Eu não sou miliciano. Sou bicheiro”, atribuída a Adriano da Nóbrega, expressa uma clara hierarquia no crime organizado. Ao se identificar como bicheiro, Adriano destaca que essa figura é vista como o bandido que obteve sucesso. O jogo do bicho não apenas precedeu a milícia, mas também se institucionalizou, operando em parceria com o Estado e convertendo ilegalidade em poder duradouro. Essa relação entre o jogo do bicho e a milícia, frequentemente vistas como distintas, é crucial para entender a dinâmica do crime no Rio de Janeiro.

Desmistificar a ideia de que a milícia é uma anomalia recente é um dos objetivos centrais de Como nasce um miliciano. O livro argumenta que a milícia, na verdade, dá continuidade a práticas criminosas do passado. O jogo do bicho estabeleceu um modelo de poder ilegal, com controle territorial, governança e relações com agentes do Estado. Não é que o bicho tenha sobrevivido em meio à repressão; ele aprendeu a capturar esses aparatos de forma estratégica.

Nesse contexto, figura importante é Ailton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães. Ex-oficial do Exército e apontado como torturador, ele transita da violência institucional para o jogo do bicho sem romper com o Estado. Sua carreira inclui extorsões e conexões com poderosos bicheiros, demonstrando que a criminalidade pode se revestir de respeitabilidade.

A atuação de Guimarães, que se tornou um dirigente de escolas de samba e presidente da Liga das Escolas de Samba, ilustra como o carnaval pode ser uma estratégia de legitimação. Isso permite que indivíduos envolvidos em atividades ilegais se apresentem como investidores culturais, mantendo a violência nas sombras.

Adriano da Nóbrega, ao se declarar bicheiro, reivindica um lugar dentro dessa tradição, reconhecendo que a ilegalidade não é o problema, mas sim quem tem a autorização social para exercê-la.

Separar o jogo do bicho, o carnaval e a milícia é um erro que permite tratar cada um como fenômenos distintos. O livro argumenta que tanto a milícia quanto o bicho emergem do funcionamento normal do Estado, desafiando a narrativa de que são poderes paralelos. O bicheiro é, portanto, o bandido que deu certo, aprendendo a operar onde a ilegalidade, o Estado e a cultura se entrelaçam.

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