"Nasci fazendo política e vou morrer fazendo política", diz Luiza Erundina
Nasci fazendo política e vou morrer fazendo política, diz Luiza Erundina
À Fórum, deputada federal com mais de 60 anos de atuação política fala sobre sua trajetória e expectativa para um novo mandato
Luiza Erundina (PSOL-SP), 91 anos, participou de evento nesta quinta-feira para falar sobre sua trajetória de mais de 60 anos na política e nova candidatura.
A deputa da está em consulta com apoiadores para definir se concorre a deputada estadual ou federal nas próximas eleições.
Erundina criticou a dificuldade de aprovação de suas propostas no Congresso, citando uma PEC sobre mobilidade urbana com tarifas zero parada há 2 anos na Comissão de Constituição e Justiça.
A parlamentar afirmou que, com ou sem mandato, continuará trabalhando politicamente junto à sociedade civil e comunidades periféricas.
O Fórum Onze e Meia desta quinta-feira (5) recebeu a deputada federal Luiza Erundina (PSOL-SP) para falar sobre a sua trajetória política nos seus 91 anos de idade e mais de 60 de atuaçõ política, e sua nova candidatura como deputada estadual de São Paulo. Erundina analisou sua atuação durante sete mandatos como deputada em Brasília, o cenário político nacional no geral e os principais desafios para as eleições deste ano.
Erundina afirma que o mandato não é um instrumento individual nem propriedade de quem o exerce, mas definido pelos eleitores. Por isso, ela está em consulta direta com seus apoiadores para decidir se lança candidatura ao legislativo estadual ou federal. “Quem escolhe e elege é o mandatário. Nós somos mandatados pelo eleitor, pelo cidadão que deseja a cidadania política”, diz.
Em relação à sua atuação no Congresso Nacional, Erundina declara que foi um dos primeiros mandatos a aprovar leis importantes para mulheres, crianças e adolescentes e idosos, mas que, de uns anos para cá, tem visto suas propostas serem impedidas de avançar.
“Como nós somos bancadas minoritárias, essas iniciativas não têm vez. Por exemplo, na Câmara dos Deputados, eu tenho uma proposta de emenda constitucional que há 2 anos está na Comissão de Constituição e Justiça aguardando ser pautada para ser votada e estabelecer um sistema único de mobilidade no país, inclusive com tarifas zero”, conta.
“Essa é uma demanda que a sociedade vem colocando com muita insistência, seja em que nível for, mas a proposta sequer é pautada na Comissão de Constituição e Justiça porque a polarização entre esquerda e direita impede que uma matéria como essa seja votada”, lamenta a deputada.
Para Erundina, isso mostra, lamentavelmente, a desproporção da representação no Congresso Nacional. “A maioria da população é constituída de trabalhadores que não têm uma representação correspondente àquilo que eles são na sociedade.”
“Portanto, vendo o quanto as minhas iniciativas legislativas já não estão tendo condições de serem tramitadas no congresso, eu me vejo talvez mais motivada, mais mobilizada para trabalhar mais perto da sociedade civil, dos movimentos, das comunidades locais, das demandas específicas de quem não tem o mandato dos espaços de poder, mas que se fazem representar nesses espaços”, explica Erundina sobre sua possível candidatura no âmbito estadual.
Ela complementa relembrando uma frase dita pelo educador Paulo Freire, quando foi secretário de Educação do governo municipal de Erundina, entre 1989 e 1993, que a definia não só como uma personalidade política, mas uma educadora. “Paulo Freire dizia: ‘Você não é política, você é educadora’‘. Aí ele corrigia: ‘Não, você é uma educadora política’. Pois bem, eu de fato sou uma educadora e uma educadora política“, diz.
Portanto, ela afirma que não se sente só deputada, mas educadora e, por isso, vai continuar fazendo política independente do mandato. “Me reconheço vocacionada para ser uma educadora política. Assim sendo, eu estando mais perto da comunidade local, das demandas da população na periferia, das mulheres que nem sempre conseguem chegar aos espaços de poder, talvez eu consiga contribuir mais para organizar a população, para ajudá-la a tomar consciência dos seus direitos e da sua força, do que estando em Brasília”, afirma.
Eu fico a maior parte do tempo em Brasília. E às vezes, se eu estivesse mais perto da comunidade local, de quem tem interesse naquilo que está sendo votado na Câmara mesmo, onde eu estou.
“Então, quem sabe, a minha vocação como educadora, junto com a minha vocação como representante de política de setores populares, eu possa estar contribuindo mais no espaço local. Me ocorre, quem sabe, que eu estou provavelmente terminando a minha trajetória de representação política, mas não de política. Eu vou morrer fazendo política. Eu nasci fazendo política e vou morrer fazendo política”, declara Erundina.
“Não necessariamente com mandatos, disputando eleições, mas como educadora política nas cidades, na periferia dos grandes centros, para acumular poder popular e pressionar de baixo para cima, para que os representantes do povo, essa maioria no Congresso, sejam obrigada a atender as demandas [do povo]”, complementa a deputada.
Deputada Federal Luiza Erundina participa de ato contra a PEC da Anistia e da Blindagem, no MASP. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Erundina também analisou o cenário político atual e falou sobre a responsabilidade que os candidatos devem assumir ao serem eleitos para um mandato. Ela lamenta que o mau exemplo de políticos, como os envolvidos no caso do Banco Master, “arranha” a democracia e faz com que a juventude não se interesse por política. Para a deputada, que tem não só sua vida profissional, mas também a vida pessoal, é indiferente ter mais um mandato ou não. Fazer política eu não vou deixar de fazer. Vou estar sempre junto cutucando quem tem poder para pressionar o outro poder. Com ou sem mandato, eu estou lá na periferia ajudando o povo a se organizar, a tomar consciência do seu direito e da sua força. Não há democracia plena sem o poder popular. Então eu vou para lá para ajudar o meu povo a se empoderar”, finaliza a deputada.
Confira a entrevista completa da deputada Luiza Erundina
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