Não, o pop latino não começou com Bad Bunny. Outros asfaltaram rua para ele erguer sua 'casita'
O pop latino e sua trajetória antes de Bad Bunny
O fenômeno de Bad Bunny no Brasil pode dar a impressão de que sua chegada marca o início do pop latino no país, mas a realidade é bem diferente. Vários artistas já prepararam o terreno para que o porto-riquenho pudesse erguer sua própria "casita".
Com shows esgotados no Allianz Parque em São Paulo, é fácil pensar que o sucesso de Bad Bunny é resultado de um rompimento com o passado. No entanto, as vozes latinas que o precederam, como Menudo, Julio Iglesias e muitos outros, foram fundamentais nesse processo.
Em 2010, ao escrever sobre a "onda latina" para a revista Billboard, o cenário era de resistência. Naquela época, o sucesso em espanhol estava quase sempre ligado à televisão. O grupo RBD destacou-se como um fenômeno, saindo diretamente do SBT para as paradas de sucesso. Sem o apoio das novelas, como ocorreu com Maná em "Mulheres Apaixonadas", a barreira parecia intransponível.
A realidade de 15 anos atrás ainda reflete um certo isolamento cultural. Sergio Affonso, ex-presidente da Warner, já alertava para um preconceito que transcendia a língua. Havia uma noção de que a música latina era sinônimo de "chocalho na mão e rebolado". Enquanto artistas como Alejandro Sanz e Shakira lutavam para ganhar espaço nas rádios, o pop rock em espanhol era frequentemente rotulado de forma negativa. Shakira, para se tornar uma popstar global, teve que se aventurar no mercado anglófono.
Por que os shows de Bad Bunny são considerados históricos? O executivo André Matalon mencionou que os produtos latinos eram vistos como "enlatados", enfrentando um preconceito que questionava a qualidade da produção vizinha. Na década de 2000, o grande sucesso romântico nas rádios brasileiras foi de Alexandre Pires, com "Usted Se Me Llevó La Vida", enquanto o mercado se mostrava fechado a outras influências.
Historicamente, o Brasil impôs barreiras culturais ao idioma espanhol, associando-o quase exclusivamente a canções românticas. Esse estigma, representado por figuras como Julio Iglesias, reforçou a ideia de que a música em espanhol era sempre voltada para baladas sentimentais.
O caso do Maná ilustra como o rock em espanhol precisou da televisão para romper esse bloqueio. O grupo vendeu mais de 20 milhões de discos globalmente, com 600 mil apenas no Brasil, impulsionado por trilhas sonoras de novelas. Canções como "Vivir sin aire" e "Labios compartidos" se tornaram hinos em momentos marcantes da TV brasileira, levando a banda a palcos como o Rock in Rio.
Uma geração inteira de brasileiros aprendeu espanhol para acompanhar os dramas de Anahí e seus colegas do RBD. Esse sucesso foi sentido de forma intensa, criando uma base de fãs que hoje apoia artistas como Bad Bunny.
O renomado Jorge Drexler apresentou uma teoria sobre a dificuldade de aceitação de fenômenos como Bad Bunny no Brasil. Segundo ele, o país se valoriza por sua autorreferencialidade, produzindo e consumindo o que cria. Essa situação dificultou a integração de sons externos.
Artistas como Belinda e Ximena Sariñana já tentaram quebrar esse bloqueio investindo no carinho dos fãs brasileiros. Com a ascensão do streaming, a dependência das rádios diminuiu, permitindo uma maior liberdade para artistas latinos.
Bad Bunny representa o ápice de um processo que levou décadas. Ele não precisou de versões em português ou novelas para ser aceito. Usou palcos globais, como o Grammy e o Super Bowl, para expandir seu público, atingindo o Brasil de maneira autêntica.
Embora sua carreira tenha começado voltada para o reggaeton, Bad Bunny diversificou seu som, especialmente com o aclamado álbum "Un Verano Sin Ti" (2022). A fusão de reggaeton e trap, com influências de salsa e música eletrônica, ampliou seu apelo.
O rapper se beneficia de um caminho aberto por artistas que mostraram que "amor" é universal. A estreia de Bad Bunny no Brasil confirma que a "marolinha" latina de 2010 se transformou no tsunami que muitos previram.
Benito não criou o interesse dos brasileiros pela música em espanhol; ele colheu os frutos de uma linhagem que sempre afirmou que o Brasil faz parte da vizinhança cultural.
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