Na sala de aula com minha nova aluna, a IA
O uso de ferramentas de Inteligência Artificial Generativa invade instituições de ensino, públicas e privadas, gerando debates entre acadêmicos e levando jovens a terceirizar o ato de pensar.
Daqui a alguns meses, completarei 10 anos como docente em uma instituição pública de ensino superior. Durante esse tempo, convivi com centenas de estudantes e professores de todo o Brasil, além de enfrentar a pandemia do coronavírus. Agora, com a força de um trator desgovernado, outra presença tomou conta da sala: a Inteligência Artificial Generativa, que, supostamente, sabe e vê tudo.
Desde o início, a IA se fez notar.
Ela não está apenas nas aulas, mas também nos trabalhos que recebo de diversas instituições ao redor do país. Observa-se sua presença em textos de qualificações, dissertações, teses e TCCs, além de projetos de extensão e pesquisa. É comum não encontrar os erros típicos de escrita e as formatações inadequadas. Em vez disso, aparecem citações de autores que nunca utilizei em sala de aula.
Recentemente, um estudante de uma faculdade no Sudeste me procurou para avaliar se seu projeto de pesquisa estava adequado para uma bolsa. Ao ler as primeiras linhas, percebi que o texto não refletia seu estilo habitual. Marquei uma reunião online. Quando pedi detalhes sobre o tema e a metodologia, a verdade se revelou.
Perguntei se o texto era realmente dele. Ele, constrangido, admitiu que não. Justificou-se pela falta de tempo, afirmando que o Chat GPT havia elaborado o projeto.
Saí da reunião com uma sensação de catástrofe e melancolia: jovens inteligentes dispostos a terceirizar o pensamento.
Uma semana depois, recebi um e-mail de Tarcízio Silva, autor do livro “Racismo Algorítmico: inteligência artificial e discriminação nas redes digitais” (2022). Ele compartilhava uma carta aberta de educadores que se opõem ao uso da IA generativa nas instituições de ensino. No início da carta, afirmam que são uma comunidade global que rejeita a adoção dessas tecnologias e discute seus impactos ambientais.
O tema gerou um intenso debate, com professores compartilhando experiências semelhantes, enquanto outros discutiam os efeitos negativos das empresas de IA, como discriminação e precarização do trabalho, além de sua potencial utilização como ferramenta de ensino.
Conversei com Silva e com Rafael Cardoso, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que defende o uso da IA, ressaltando a necessidade de um debate aberto sobre o tema. Falei também com Raquel Lobão, do Laboratório de Mídias Digitais da UERJ, sobre uma portaria da Universidade Federal do Ceará (UFC) que regulamenta o uso da IA em trabalhos acadêmicos.
Tarcízio vê com ceticismo a forma como as tecnologias de IA são integradas ao ensino. Para ele, a euforia em torno de plataformas "inteligentes" muitas vezes resulta em precarização docente e reforço de desigualdades. Ele alerta que a normalização de modelos de IA enfraquece as indústrias criativas e aumenta a assimetria entre as grandes empresas de tecnologia e os criadores.
Cardoso, por outro lado, acredita que a proibição do uso da IA não é a solução. Ele defende uma abordagem pragmática, reconhecendo os riscos, mas também a necessidade de um diálogo mais aberto entre professores e alunos. Para ele, o papel do professor permanece central no aprendizado, podendo ensinar o uso ético e criativo dessas ferramentas.
A discussão sobre o uso de IA nas instituições de ensino é complexa e multifacetada. A portaria da UFC, que exige a submissão de trabalhos acadêmicos a verificadores de plágio, enfrenta críticas por sua abordagem rigorosa. Raquel aponta fragilidades na definição de similaridade e na distinção entre produção original e apoio legítimo.
Enquanto isso, o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), lançado em 2024, promete investimentos em pesquisa e infraestrutura, mas também levanta questões sobre quem realmente se beneficia dessas iniciativas.
Em meio a essas discussões, a necessidade de um entendimento claro e ético sobre o uso da IA se torna cada vez mais urgente. O futuro da educação pode depender dessa reflexão, e é essencial que tanto instituições quanto alunos se comprometam com um uso responsável e consciente dessas tecnologias.
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