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Modelo brasileira escapou de recrutador de Epstein por causa da mãe: 'Estava no meio do furacão'

"Se eu tivesse desobedecido a minha mãe e ido para Nova York, o que será que teria acontecido comigo?" Essa pergunta assombra Gláucia Fekete há anos. Em 2004, com apenas 16 anos, ela recebeu um convite para um concurso de modelos no Equador, que prometia um prêmio de US$ 300 mil e contratos internacionais, permitindo que ela seguisse direto para Nova York.

No entanto, sua mãe, Bárbara Fekete, desconfiou da proposta. O criador do concurso, o francês Jean-Luc Brunel, foi até a casa da família no interior do Rio Grande do Sul para convencê-la. Brunel, que mais tarde seria acusado de aliciar jovens e tinha vínculos com o criminoso sexual Jeffrey Epstein, passou uma tarde em Santa Rosa, a cerca de 500 km de Porto Alegre.

Em 2020, Brunel foi preso na França, onde morreu em 2022 sem ser julgado. Na época do convite, ele conseguiu convencer a família de Gláucia, que acabou embarcando com a equipe para o concurso.

Cerca de 50 jovens de diferentes países participaram do Models New Generation em Guayaquil. O jornal El Universo noticiou que as participantes tinham entre 15 e 19 anos e que a vencedora foi a brasileira Aline Weber, de 15 anos, que hoje tem uma carreira internacional.

Vetada pela mãe, Gláucia rejeitou a proposta de Brunel para viajar aos EUA. "Fiquei brava com a minha mãe por não ter me deixado ir para Nova York", lembra. Agora, aos 38 anos, ela reflete: "Estava no meio desse furacão todo, né? Foi um livramento."

A história de Gláucia faz parte de uma nova investigação da BBC News Brasil sobre Epstein e sua rede no Brasil. Documentos revelam que Epstein esteve em Guayaquil no dia da final do concurso e que pelo menos uma modelo menor de idade viajou em seu avião naquele ano.

Brunel utilizava sua agência, a Karin Models, para atrair meninas e jovens mulheres para a rede de Epstein, emitindo vistos de trabalho que eram pagos pelo bilionário. Em 2004, ainda não havia acusações formais contra Epstein, que seria investigado a partir de 2005.

Gláucia, que começou sua carreira aos 13 anos, foi apresentada a Brunel pelo olheiro Dilson Stein, famoso por ter revelado Gisele Bündchen. A mãe, desconfiada do convite, estava relutante em permitir que a filha viajasse.

Brunel prometeu a Bárbara que Gláucia venceria o concurso e teria um futuro promissor. Apesar das reservas, a mãe acabou concordando, mas não a acompanhou. Stein confirmou sua mediação, mas afirmou não conhecer Brunel bem e nunca ter ouvido falar de Epstein até pouco tempo atrás.

Os dias no Equador foram tranquilos para Gláucia, que encontrou outras brasileiras no concurso. Embora não tenha enfrentado problemas diretos, ela começou a desconfiar da situação ao perceber a dificuldade de se comunicar com a família.

Antes de voltar, recebeu uma proposta para viajar com Brunel aos EUA, mas sua mãe negou. "Não. Nem pensar", respondeu. Gláucia se sentiu enganada, pois trabalhou mas não recebeu qualquer compensação. Sua mãe a proibiu de seguir carreira como modelo, priorizando seus estudos.

Anos depois, Gláucia começou a entender a gravidade da situação quando tomou conhecimento das denúncias contra Epstein e Brunel. As reportagens do Miami Herald em 2019 ajudaram a reabrir as investigações sobre Epstein, que morreu na prisão no mesmo ano.

Os documentos revelam que Epstein esteve em Guayaquil um dia antes da final do concurso. E-mails mostram que ele e Ghislaine Maxwell planejaram sua viagem para abastecer uma aeronave.

A mãe de Gláucia soube das acusações contra Brunel apenas após o contato da BBC News Brasil. "Infelizmente acharam a minha filha", lamentou Bárbara.

Hoje, Gláucia é grata pela proibição da mãe, refletindo sobre o que poderia ter acontecido se tivesse seguido aquele caminho.


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