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Ministério Público investiga tremores de terra em área do projeto da ponte Salvador-Itaparica

Investigação sobre tremores de terra em área do projeto da ponte Salvador-Itaparica

Pesquisador destaca a importância de um estudo aprofundado

Publicado em 27 de fevereiro de 2026, às 06:00

Moradores da Ilha de Itaparica encaminharam uma representação ao Ministério Público do Estado da Bahia (MP-BA), pedindo medidas preventivas e a investigação de abalos sísmicos registrados na área do projeto da ponte Salvador-Itaparica. A denúncia foi incorporada a um procedimento administrativo que examina os impactos ambientais e urbanísticos do projeto. O MP informou ao CORREIO que, até o momento, não foi identificado risco sísmico iminente na região.

A representação menciona tremores ocorridos entre junho e julho do ano passado. O Laboratório Sismológico da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (LabSis/UFRN) registrou eventos de baixa magnitude, entre 1.7 e 3.0 mR, sendo o maior, de 3.0 mR, registrado em 3 de junho, a aproximadamente oito quilômetros da costa de Vera Cruz. A magnitude é medida pela Escala Richter (mR).

Os moradores relataram vibrações e batidas em portas de suas casas. O coletivo Ativista, representando a população local, expressou preocupação com a possibilidade de desastres em decorrência dos abalos sísmicos, caso o projeto avance. A Ilha de Itaparica é a maior ilha marítima do Brasil, dividida entre os municípios de Itaparica e Vera Cruz.

Em resposta aos registros, a 5ª Promotoria de Justiça de Meio Ambiente e Habitação e Urbanismo do MP-BA solicitou ao LabSis/UFRN um boletim técnico completo e esclarecimentos sobre o potencial risco sísmico na área proposta para a construção da ponte. O CORREIO teve acesso a um despacho encaminhado ao laboratório em agosto do ano passado, no qual o MP alerta sobre um possível risco geológico na Baía de Todos-os-Santos.

"De acordo com as informações, a região onde a ponte será construída apresenta um padrão de atividade sísmica crescente e está situada sobre falhas geológicas ativas, o que torna a construção de uma obra de grande porte potencialmente arriscada do ponto de vista estrutural", destaca o despacho.

Embora os tremores sejam classificados como de baixa magnitude, eles agora fazem parte do monitoramento do MP, que mantém a investigação aberta enquanto o processo ambiental é analisado. As obras da ponte estão previstas para iniciar em junho deste ano. O projeto tem sido prometido por governos petistas desde 2009.

A reportagem entrou em contato com o MP, que confirmou o recebimento dos dados do laboratório. Em nota, o MP-BA afirmou que, até o momento, não foram identificados riscos iminentes.

"Com base nas informações técnicas disponíveis, não há indícios de perigo sísmico iminente na área onde se pretende implantar o empreendimento. O caso continua sob apuração e acompanhamento institucional, aguardando a finalização da análise da Licença Ambiental de Instalação pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema)", informou o órgão.

Sobre a investigação, a Secretaria Extraordinária da Ponte Salvador-Ilha de Itaparica (SVPonte) afirmou que o despacho do MP foi enviado ao laboratório sem notificação prévia à pasta ou à concessionária. "Para obter informações mais detalhadas, recomendamos o contato direto com a UFRN ou com o próprio Ministério Público", diz a nota.

A Concessionária Ponte Salvador–Itaparica, responsável pela obtenção da licença de instalação, também foi contatada, mas não se manifestou sobre a investigação. O espaço permanece aberto para pronunciamentos.

Necessidade de estudo sismológico

O professor Aderson Nascimento, coordenador do Laboratório Sismológico da UFRN, explicou que a universidade enviou boletins públicos sobre os abalos sísmicos em Vera Cruz registrados no ano passado. Segundo ele, não é possível estabelecer uma relação direta entre os fenômenos e a ponte, que passou por um processo de sondagem de 12 meses, de abril de 2024 a abril do ano passado.

O governo estadual informou que a sondagem começou em terra no município de Vera Cruz, prosseguiu para águas rasas até 10 metros de profundidade, e culminou em águas profundas, com 67 metros de lâmina d'água. Foram realizados 105 furos ao longo do traçado da ponte, com extração de material em alguns pontos com profundidade de 200 metros.

Para o professor Nascimento, o projeto exige um estudo sismológico detalhado sobre os impactos que a construção pode causar na região, que já registra tremores de terra. Tais análises são comuns em grandes projetos de engenharia, como pontes e barragens de mineração. Ele adverte que mesmo tremores de baixa magnitude podem resultar em danos significativos, dependendo de sua localização.

"Os dados são essenciais para a compreensão sísmica da região e podem servir de base para boletins e estudos acadêmicos. Agora, cabe aos responsáveis pelo projeto avaliar o risco", explica o professor. "Essas informações são fundamentais para uma análise sismológica aprofundada em qualquer grande obra de engenharia", conclui.

Licença de instalação da ponte enfrenta obstáculos

Conforme noticiado pelo CORREIO na semana passada, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) se posicionou contra a licença de instalação da ponte Salvador-Itaparica. A decisão está registrada no Parecer Técnico nº 22/2026, publicado em 26 de janeiro deste ano. O Iphan analisa um relatório sobre os impactos da construção nas comunidades tradicionais, um tema que tem sido denunciado pelos moradores da ilha.

O Iphan apontou que o Relatório de Avaliação de Impacto ao Patrimônio Imaterial, elaborado por uma empresa contratada pelo consórcio da ponte, é insuficiente para que o órgão conceda a licença.

O Iphan recomenda a elaboração de um novo relatório e a análise de impactos em outros 12 municípios que não foram incluídos no documento inicial. O objetivo é proteger as comunidades tradicionais e manifestações culturais que possam ser afetadas pela construção da ponte.

Em nota, o governo estadual afirmou que o parecer do Iphan resultou em uma notificação à concessionária, que está tomando as providências necessárias para atender às exigências do órgão. "O Governo do Estado da Bahia, por meio da SVPonte, acompanha todas as etapas do licenciamento, buscando o cumprimento da legislação e das recomendações dos órgãos competentes", acrescenta.

A Concessionária Ponte Salvador-Itaparica informou que "o processo de licenciamento ambiental do Sistema Rodoviário Salvador–Itaparica segue regularmente os trâmites previstos na legislação brasileira, com o acompanhamento dos órgãos competentes".


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