Martinho da Vila revisita álbum que chama de 'melhor disco de samba já feito'
Martinho da Vila Celebra Clássico do Samba
Em julho de 1974, Martinho da Vila compartilhou suas expectativas sobre um álbum que estava prestes a ser lançado em setembro. Na ocasião, ele declarou: "É uma festa, garanto que é o melhor trabalho que já se fez em disco no Brasil". Essa declaração se referia a "Canta Canta, Minha Gente", um marco não apenas na carreira do artista, mas também na música popular brasileira, que completou cinco décadas no ano passado.
Recentemente, o sambista apresentou um show especial no estádio Mangueirão, em Belém, como parte do festival Psica, realizado entre 12 e 14 de outubro. Em uma conversa descontraída, Martinho, agora com 87 anos, refletiu sobre sua afirmação original, dizendo: "Se fosse pensar mais um pouquinho, não diria aquilo. Mas na verdade foi o melhor disco de samba feito no Brasil. Só me esqueci da palavra ‘samba’."
O álbum é reconhecido por seu repertório marcante, incluindo faixas como "Disritmia", "Renascer das Cinzas", "Visgo de Jaca" e a canção que dá nome ao disco. Martinho destacou o cuidado na produção, que contou com a gravação em 16 canais sob a direção de Rildo Hora, além da colaboração de músicos renomados.
A produção de Canta Canta, Minha Gente foi um divisor de águas. Martinho recorda que, na época, os discos de samba costumavam ser simples, com capas genéricas e arranjos básicos. Ele tinha a liberdade contratual para ousar e decidiu criar um álbum que fosse mais do que uma mera coletânea de canções.
O sambista também enfrentou a censura da ditadura militar com algumas de suas composições. A canção "Disritmia" foi vetada devido ao uso da palavra "porre", levando Martinho a dialogar diretamente com os censores para esclarecer sua letra.
A faixa "Tribo dos Carajás", que aborda questões indígenas, também gerou polêmica e foi retirada de um desfile da escola de samba Vila Isabel, da qual Martinho é presidente de honra. Ele expressou sua frustração com a eliminação da música, que pretendia honrar os povos originários da Amazônia.
Além de suas experiências com censura, Martinho sempre buscou registrar em disco a rica tradição musical brasileira. Em Canta Canta, Minha Gente, ele trouxe uma colagem de pontos de umbanda e explorou ritmos pouco conhecidos, como o calango, em uma homenagem às suas raízes.
As mensagens de resistência e busca pela felicidade permeiam o álbum. Em "Renascer das Cinzas", Martinho visava inspirar autoestima e esperança, especialmente em momentos difíceis.
O disco também inclui faixas como "Patrão, Prenda Seu Gado", uma reflexão sobre a negritude, e "Nego Vem Sambar", que encoraja a população negra a buscar educação superior.
Com seu estilo inconfundível e uma abordagem tranquila, Martinho da Vila continua a reverberar na música brasileira, mais de 50 anos após o lançamento de seu álbum icônico. Ele enfatiza que sua arte é feita por amor, e se outros se conectam com isso, é uma consequência natural de seu trabalho.
O festival Psica, que apresenta o legado de Martinho, contará com uma programação diversificada, incluindo outros grandes nomes da música brasileira. Os ingressos estão disponíveis a partir de R$ 125, com gratuidade para pessoas trans e PCDs.
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