Eduardo Gomes

Marco da orla, Casa do Brigadeiro resiste no "mar de prédios" em Boa Viagem, na Zona Sul do Recife

Casa do Brigadeiro, um símbolo entre os prédios de Boa Viagem

Em meio ao vasto horizonte de prédios na Avenida Boa Viagem, a Casa do Brigadeiro se destaca como um marco histórico na região, resistindo ao tempo e às mudanças urbanas ao longo de seus 81 anos de existência.

A residência, localizada no número 4.224, se encontra cercada por uma infinidade de edifícios, mas ainda mantém uma vista privilegiada para a praia de Boa Viagem. Inaugurada em 11 de outubro de 1944, a casa foi o lar do Brigadeiro Eduardo Gomes, um importante militar da Aeronáutica, que se destacou durante a Segunda Guerra Mundial.

Natural do Rio de Janeiro, Eduardo Gomes nasceu em 1896 e é lembrado por sua trajetória na Aeronáutica e na política. Ele se envolveu no Movimento Tenentista e na famosa revolta dos 18 do Forte de Copacabana, sendo um dos poucos sobreviventes. Chegou a Recife em 1941, onde assumiu o comando das I e II Zonas Aéreas.

O Brigadeiro também foi candidato à Presidência da República em 1945 e 1950, mas não obteve sucesso, sendo derrotado por Getúlio Vargas. O doce "brigadeiro" ganhou notoriedade durante suas campanhas, quando era vendido para arrecadar fundos. Posteriormente, ocupou o cargo de Ministro da Aeronáutica em dois governos.

A casa foi construída em um período em que a Avenida Boa Viagem ainda não era um grande centro residencial. A exploração da área começou em 1924, com iniciativas do governador Sérgio Loreto, que incentivou a construção da via e a movimentação social na região, conforme explica a professora da UFRPE, Mariana Zerbone.

Na década de 20, a avenida começou a ser urbanizada, e cerca de 40 casas foram construídas, todas pertencentes à elite recifense. Com o tempo, a Avenida Boa Viagem se transformou em uma base americana durante a guerra, com forte influência na construção de novas edificações.

Uma placa próxima ao portão da casa, instalada em dezembro de 2008, descreve a importância do imóvel e sua relação com a história militar do Brasil, destacando a memória dos 34 navios brasileiros torpedeados durante a guerra.

Na década de 50, o governo de Pernambuco adotou políticas de isenção fiscal para incentivar a construção de prédios na Avenida, buscando imitar o modelo de Copacabana. Assim, começaram a surgir os primeiros edifícios, que inicialmente ocupavam espaços vazios, mas com o tempo substituíram as residências.

Atualmente, a Avenida Boa Viagem é predominantemente composta por prédios, com apenas 24 casas registradas entre os 6.707 imóveis da via, segundo dados da Prefeitura do Recife.

A especulação imobiliária se intensificou na área, tornando Boa Viagem um dos locais com os aluguéis mais caros da cidade. Apesar dessa transformação, a Casa do Brigadeiro continua a ser um símbolo de resistência, funcionando como um espaço de memória histórica.

Daniel Uchôa, professor e pesquisador, enfatiza a importância da preservação do imóvel, que representa uma "coexistência de edificações de tempos diferentes". Ele sugere que a Casa do Brigadeiro poderia ser transformada em um espaço cultural, como um Museu da História de Boa Viagem, para atender à demanda por equipamentos culturais na região.

“Esse patrimônio merece ser tombado pelo seu valor histórico e precisa cumprir um papel essencial na cidade”, conclui Uchôa, ressaltando a relevância da Casa no contexto urbano atual.


← Voltar para as notícias