Fundo Garantidor de Créditos

Mais um banco entra para a fila do FGC: o que isso revela ao mercado?

Liquidações recentes expõem distorções de incentivos, pressionam o caixa do FGC e podem encarecer crédito e serviços bancários

24/02/2026 | 17:30

Atualização:
24/02/2026 | 17:40

Na semana passada, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Pleno, anteriormente conhecido como Voiter. Essa medida seguiu o caso Master, mesmo que as duas instituições não fizessem parte do mesmo conglomerado. Para o investidor comum, a estrutura societária é irrelevante; o que prevalece é a percepção de que mais um banco se junta à fila do Fundo Garantidor de Créditos.

A liquidação do Banco Pleno deve gerar um montante de depósitos garantidos em torno de R$ 5 bilhões. Isso representa mais uma conta a ser paga por um fundo que já acumula mais de R$ 50 bilhões em garantias acionadas recentemente. Antes desses eventos, o caixa do FGC era de aproximadamente R$ 120 bilhões. O caso Master por si só consumiu quase metade da liquidez disponível. Embora o sistema continue operacional, a margem de segurança se reduziu.

Nesse contexto, dois equívocos precisam ser abordados com calma. O primeiro é a crença de que o sistema financeiro brasileiro é frágil. O segundo é pensar que apenas os investidores desses bancos arcarão com as consequências.

Historicamente, o sistema financeiro brasileiro é um dos mais robustos e prudentes do mundo. Nossos bancos são altamente regulados, com supervisão rigorosa e controle sobre os níveis de alavancagem. Ao longo das últimas décadas, enfrentamos crises externas e turbulências sem que isso resultasse em uma crise sistêmica como a do Subprime americano. Os grandes bancos brasileiros são sólidos, bem capitalizados e duradouros.

Entretanto, isso não significa que não existam incentivos mal calibrados dentro do sistema.

A ampliação do limite de garantia do FGC de R$ 70 mil para R$ 250 mil por emissor foi interpretada como um progresso. Embora tenha promovido a diminuição da concentração bancária e dado espaço a bancos menores, também permitiu que instituições menores captassem CDBs com taxas agressivas, sob a proteção do FGC. O investidor, amparado pela proteção, passou a desconsiderar o risco. Intermediários utilizaram essa garantia como um argumento comercial eficaz, criando um ciclo em que risco elevado e captação acelerada coexistiram.

No caso Master, houve um agravante: a presença de fraudes em parte dos ativos que lastreavam as operações. Captar a taxas elevadas e investir em ativos arriscados não é ilegal, mas a fraude minou a confiança do mercado.

O FGC, ao longo dos anos, assumiu um papel que ultrapassou sua função original de proteger o pequeno depositante, tornando-se uma ferramenta de marketing para estruturas mais agressivas. Seus dirigentes frequentemente reafirmaram a solidez do fundo, mesmo diante da proliferação de modelos questionáveis. Essa aceitação do protagonismo trouxe consequências.

Além disso, não é apenas o investidor daquele banco que arca com os custos.

Diante do déficit, o FGC solicitou aos demais bancos do sistema a antecipação de cinco anos de contribuições para restaurar seu caixa. Isso significa que todo o sistema financeiro está sendo convocado a cobrir os custos da irresponsabilidade de alguns. Este custo não será absorvido pelas margens bancárias, mas provavelmente será repassado na forma de serviços mais caros, spreads maiores e crédito menos abundante, afetando toda a sociedade que utiliza o sistema bancário.

Ainda existem defensores do modelo que possibilitou essa expansão desordenada, geralmente aqueles que se beneficiaram das taxas elevadas. No entanto, os ganhos foram privados enquanto as perdas se tornaram coletivas.

Essa assimetria é o ponto central.

Um banco excessivamente arriscado não deveria ter crescido sob a proteção de uma garantia mutualizada. O FGC não deve servir como avalista de juros agressivos ou como ferramenta promocional. Sua função deve ser proteger o mínimo necessário para garantir a estabilidade, não viabilizar estratégias que transferem riscos para a sociedade.

A garantia deve assegurar a proteção do principal, não a blindagem de rentabilidades fora da curva.

O uso do FGC como ferramenta de marketing deveria ser proibido. Intermediários que recomendam produtos com conflitos de interesse devem ser responsabilizados. E, principalmente, os bancos que atuam com prudência, que são a maioria, não devem arcar com os custos dos inconsequentes.

A descentralização bancária é desejável. Mais competição pode reduzir custos e ampliar o acesso, mas uma competição saudável exige regras bem definidas e incentivos adequados.

O episódio recente não indica fragilidade estrutural do sistema financeiro brasileiro, mas revela falhas de incentivo que necessitam de correção.

Se as regras forem ajustadas, poderemos emergir dessa crise com um sistema mais sólido, transparente e equilibrado. Caso contrário, continuaremos a alternar períodos de euforia com a socialização de prejuízos, um ciclo que, cedo ou tarde, cobra um preço maior.


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