Mais ricos vacinam menos os filhos no Brasil
Estudos revelam que a hesitação vacinal é mais prevalente nas classes sociais mais altas do Brasil.
Introdução
A hesitação vacinal entre as classes mais altas é um fenômeno que merece atenção. A socióloga Marcia Couto discute as crenças enraizadas sobre controle individual, estilos de vida naturais e os efeitos da polarização política. Compreenda os mitos que persistem e a relevância da imunização coletiva.
Principais Tópicos
A hesitação vacinal é mais comum nas classes sociais mais altas do Brasil.
Crenças em controle individual, cuidados personalizados e um estilo de vida “natural” contribuem para essa relutância.
A polarização política e o negacionismo durante a pandemia intensificaram a desconfiança nas instituições.
Mitos sobre autismo, o paradoxo do sucesso vacinal e a ideia de imunidade natural continuam a alimentar essa hesitação.
A vacinação deve ser vista como um dever sanitário coletivo, essencial para a imunidade de rebanho, e não apenas como uma escolha pessoal.
Entrevista com Marcia Couto
A hesitação vacinal é mais frequente nas classes sociais mais altas. O que a pesquisa revela sobre isso?
Estudos indicam que famílias de alta renda e escolaridade apresentam características específicas. Primeiramente, acreditam que podem controlar individualmente os riscos à saúde. Além disso, pensam que, personalizando os cuidados de saúde dos filhos, podem dispensar medidas sanitárias públicas. Por fim, muitos acreditam que um estilo de vida mais natural elimina a necessidade de vacinas.
A polarização política impactou a hesitação vacinal nas classes mais baixas?
Sim, a pandemia expôs uma polarização político-ideológica no Brasil, com crises de confiança e disputas morais. Um governo claramente negacionista e antivacina contribuiu para um aumento geral na desconfiança em relação às instituições.
Por que a hesitação vacinal persiste, mesmo com a eficácia das vacinas?
Essa hesitação é alimentada por mitos que circulam na internet e nas redes sociais. Um deles é a falsa crença de que a vacina contra o sarampo causa autismo, originada de um artigo fraudulento da década de 1990. Outro mito é o paradoxo do sucesso vacinal: com a eficácia das vacinas, as pessoas temem mais os efeitos colaterais do que a própria doença. Além disso, há a ideia equivocada de que a imunidade natural, adquirida ao contrair doenças, é mais benéfica.
As elites acreditam que seu acesso a cuidados de saúde as isenta da necessidade de vacinação. No entanto, a vacinação efetiva depende de altos níveis de imunização na população, entre 90% e 95%. Portanto, não podemos ter grupos que consideram sua liberdade individual superior ao dever sanitário de proteção coletiva.
Fontes
1. “Eu vivo num mundo muito burguês, não moro na periferia: não vacinação infantil e a intersecção entre raça, classe e gênero”; “Desigualdades sociais da cobertura vacinal aos 24 meses – coorte de nascidos vivos em 2017-2018: Inquérito Nacional de Cobertura Vacinal, 2020”.
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