Mais fundos de crédito têm problemas nos EUA. Há risco no Brasil?
Problemas nos Fundos de Crédito dos EUA: Impacto no Brasil?
01/03/2026 05h00
Atualizado 1 dia atrás
Nos últimos dias, os desafios enfrentados por fundos de crédito nos Estados Unidos, que investem em títulos de empresas, geraram preocupação entre economistas e investidores. A gestora Blue Owl suspendeu os resgates de um de seus fundos voltados para o varejo. Recentemente, outros dois fundos, um da gigante KKR e outro da Apollo, também relataram dificuldades, com aumento da inadimplência e reavaliação de carteiras. Isso levanta a questão: será que esses problemas podem afetar o Brasil?
De acordo com o economista e gestor Dan Kawa, a situação dos gestores nos EUA tem gerado um impacto significativo que merece atenção. Ele alerta que, se a tendência persistir, pode haver resgates e uma diminuição na captação de crédito privado, o que elevaria os spreads e encareceria o custo da dívida.
O que ocorreu nos Estados Unidos pode servir como um alerta para os FIDCs brasileiros, segundo Gabriel Uarian, analista da Cultura Capital. A Blue Owl Capital, em 18 de fevereiro, tomou uma medida drástica ao suspender permanentemente as janelas trimestrais de resgate do seu fundo Blue Owl Capital Corp II (OBDC II), que possui ativos de US$ 1,6 bilhão.
Uarian destaca que o fundo já enfrentava restrições desde novembro de 2025. Em vez de reabrir as janelas limitadas, a gestora decidiu vender US$ 600 milhões em empréstimos diretos, cerca de 34% da carteira, para levantar recursos e devolver aproximadamente 30% do patrimônio líquido aos cotistas em até 45 dias. Após isso, o fundo seguirá em um modo “run-off”, devolvendo dinheiro conforme os empréstimos forem amortizados ou vendidos. Essa decisão resultou em uma queda significativa nas ações da gestora e de outras empresas do setor.
A questão principal, segundo Uarian, não é uma crise de liquidez repentina, mas um desalinhamento estrutural entre os prazos dos ativos e passivos do fundo. O OBDC II empresta a empresas de médio porte, principalmente no setor de tecnologia, por prazos longos, enquanto prometia liquidez trimestral aos investidores de varejo.
Nos EUA, o mercado de private credit atingiu quase US$ 1,8 trilhão. Mais da metade desse montante está em veículos semi-líquidos voltados para investidores individuais, que oferecem janelas de resgate frequentes sobre ativos sem um mercado secundário sólido. Uarian explica que, atraídos por retornos de 10% a 12%, os investidores de varejo acabaram enfrentando a dura realidade quando os resgates se tornaram impossíveis.
No Brasil, a estrutura é diferente e mais segura. Os FIDCs de crédito privado, que já ultrapassam R$ 700 bilhões, devem chegar a quase R$ 1 trilhão em 2026. A maioria desses fundos é fechada, o que significa que os cotistas não podem solicitar resgates antes do prazo final. Isso cria um alinhamento natural entre os prazos dos investimentos e a iliquidez dos ativos.
A Resolução 175 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) oferece várias camadas de proteção aos investidores. Os FIDCs abertos só podem oferecer empréstimos com prazo total de até 180 dias, e o administrador deve monitorar a liquidez constantemente, com regras claras para suspender resgates em situações excepcionais.
Uarian observa que, embora a regulação brasileira proíba promessas ilusórias de liquidez trimestral, isso não elimina completamente o risco. Recentemente, a gestora Fictor enfrentou saídas substanciais de recursos em vários FIDCs, resultando na suspensão temporária de resgates em alguns casos. Outros episódios, como o da Empirica em 2023, também mostram que o desalinhamento pode surgir rapidamente.
A boa notícia é que as restrições no Brasil vêm acompanhadas de governança regulatória, com assembleias de cotistas e transparência. O crédito privado brasileiro é mais diversificado, com menos concentração em grandes empréstimos diretos a empresas de tecnologia, e começa a desenvolver um mercado secundário de cotas de FIDCs para proporcionar liquidez.
Uarian conclui que a situação da Blue Owl não marca o fim do private credit americano, mas serve como um aviso sobre os riscos de promessas de liquidez insustentáveis. No Brasil, a combinação de fundos predominantemente fechados com a CVM 175 oferece uma vantagem estrutural de estabilidade.
Recomendações para Investidores
Para os investidores, a lição é clara: é fundamental buscar um alinhamento claro de prazos, optar por tranches sêniores com ratings reais, exigir sobregarantias e, sempre que possível, preferir veículos fechados quando se trata de crédito privado. O mercado brasileiro de crédito privado possui um grande potencial de crescimento, mas é essencial que mantenha a disciplina que o mercado americano parece ter perdido.
Daniela Gamboa, Head de Crédito Privado da SulAmérica Investimentos, esclarece que o conceito de crédito privado nos EUA difere do brasileiro. Nos EUA, os fundos focam em empresas de pequeno e médio porte com baixa liquidez, enquanto no Brasil, o crédito privado é dominado por investimentos em debêntures de grandes empresas.
Os FIDCs brasileiros, que se assemelham aos BDCs americanos, permitem o acesso a carteiras diversificadas de risco, financiando empresas menores fora do mercado regulado pelo Banco Central. O crescimento do mercado de FIDCs tem sido robusto, especialmente após a CVM permitir que investidores de varejo adquiram cotas.
Os problemas nos EUA surgiram quando a qualidade de crédito das carteiras foi questionada, levando a um aumento nos pedidos de resgate e à necessidade de vendas forçadas de ativos.
Daniela acredita que o Brasil não enfrentará um evento semelhante, já que não possui uma indústria de fundos tão concentrada em pequenas e médias empresas e em setores vulneráveis a disrupções tecnológicas. A estrutura de FIDCs, que financiam empresas menores com carteiras pulverizadas e prazos curtos, reduz significativamente os riscos estruturais.
Conclusão
O panorama atual exige cautela, mas também oferece oportunidades no Brasil, onde a regulamentação e a diversificação dos ativos podem servir como barreiras contra crises semelhantes às observadas nos EUA.
← Voltar para as notícias