Machismo e discriminação: reflexos da violência contra mulheres no trabalho
Três incidentes recentes evidenciam como o discurso de ódio e as práticas misóginas continuam a impactar as relações de trabalho e a vida das mulheres.
A primeira ocorrência envolve a decisão da 9ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Sob a justificativa de “vínculo afetivo consensual”, um homem de 35 anos foi absolvido após ser acusado de estuprar uma menina de 12 anos. Essa decisão gerou uma forte reação acadêmica, institucional e social, resultando em investigação do CNJ e apelo do Ministério Público. Após a repercussão negativa, o desembargador relator, Magid Nauef Láuar, acatou o recurso do Ministério Público, mantendo a condenação inicial de nove anos e quatro meses de prisão.
Outro episódio relevante foi a homenagem pública feita pelo time de futebol Vasco da Gama-AC a atletas suspeitos de participação em um estupro coletivo de duas mulheres durante a estadia no clube. Esse ato gerou críticas dos ministérios das Mulheres e do Esporte, que lamentaram a situação e pediram investigação.
Por fim, um jogador do Bragantino proferiu comentários abertamente machistas contra a árbitra Daiane Muniz após uma derrota no Campeonato Paulista. Os ministérios das Mulheres e do Esporte novamente se manifestaram, condenando mais este ato de machismo no futebol.
Esses episódios são sintomas de um ambiente social que normaliza o desrespeito às mulheres em posições de poder, criando um espaço permissivo para práticas de discriminação e violência.
O machismo estrutural presente na sociedade empurra as mulheres para subempregos, dificultando sua ascensão a cargos de liderança e mantendo-as em funções invisíveis ou desvalorizadas.
As notícias mencionadas demonstram como a misoginia, em sua forma mais visível, impacta o ambiente de trabalho. Ao homenagear atletas acusados de estupro, o clube envia uma mensagem de relativização da violência sexual. Da mesma forma, ao desmerecer a competência de uma árbitra, o jogador reforça estereótipos sobre a incapacidade feminina.
A ONU alerta sobre a “normalização da misoginia” como um fenômeno global que compromete instituições, fragiliza direitos e alimenta a violência de gênero.
Relatórios recentes indicam retrocessos na luta pela igualdade, com índices alarmantes de feminicídio. Em 2025, o Brasil registrou o maior número de casos já contabilizados, com quatro mulheres assassinadas por dia, segundo o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinsesp).
Quando o sistema de justiça aceita narrativas que minimizam crimes sexuais, como o ocorrido no TJ-MG, isso descredibiliza a voz de meninas e mulheres, afetando diretamente ambientes corporativos onde denúncias de assédio são frequentemente desacreditadas e retaliadas.
A misoginia, manifestada por meio de piadas machistas, desqualificação, interrupções constantes e controle da aparência, não é inofensiva. Ela abre espaço para formas mais graves de violência, especialmente no local de trabalho.
Fabíola Marques é advogada, professora da PUC na graduação e pós-graduação, e sócia do escritório Abud e Marques Sociedade de Advogadas.
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