conjur Juiz anula medidas de Trump que desmantelavam mídia estatal dos EUA

Juiz anula medidas de Trump que desmantelavam mídia estatal dos EUA

Juiz anula medidas de Trump que desmantelavam mídia estatal dos EUA

O juiz federal Royce Lamberth, do Distrito de Colúmbia, declarou “nulas e sem efeito” todas as ações tomadas pela CEO interina da U.S. Agency for Global Media, Kari Lake. A razão, segundo o juiz, é a de que ela ocupa ilegalmente o cargo para o qual foi nomeada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sem a necessária confirmação do Senado.

A U.S. Agency for Global Media é a organização federal que administra a Voz da América — uma rede de emissoras de rádio e TV fundada em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, com a missão de se contrapor à propaganda antiamericana em países adversários.

Os programas da Voz da América são retransmitidos em 44 idiomas por estações de rádio e em 24 idiomas por emissoras de televisão, basicamente para todos os países do mundo com regimes considerados rivais, tais como China, Rússia, Cuba e Irã — sempre com uma “narrativa pró-americana”.

O juiz Lamberth mandou o governo Trump pisar no freio: “Quaisquer ações tomadas por Lake durante seu alegado período como CEO interina (…), incluindo a redução da força de trabalho, ficam anuladas”. Isto é, todos os demitidos ou licenciados devem ser reintegrados em seus cargos — embora o governo ainda pretenda levar a disputa a um tribunal de recursos.

Talvez o mundo não se importe muito com o fim da Voz da América e demais afiliadas. Aliás, os países atingidos pelas poderosas transmissões das emissoras de rádio e TV da organização agradecem. Afinal, a Voz da América, sozinha, atinge mais de 350 milhões de pessoas, semanalmente, com suas “narrativas pró-americanas”.

O presidente Trump colocou Kari Lake, sua fiel aliada, à frente da organização, com uma missão declarada: desmantelar a Voz da América e outras emissoras associadas, como a Rádio Europa Livre/Rádio Liberdade, a Rádio Ásia Livre, a Rede de Radiodifusão para o Oriente Médio e a Radio Televisión Martí (especial para Cuba).

Kari Lake fez o que estava ao seu alcance para agradar o presidente. Demitiu ou colocou em licença administrativa cerca de 1,4 mil jornalistas e funcionários, aproximadamente 85% da força de trabalho da organização; cortou verbas de todas as emissoras; e reduziu as transmissões para apenas quatro idiomas. Enfim, deixou a Voz da América e afiliadas à beira da morte.

Em junho do ano passado, ao anunciar Lake para o cargo, Trump havia deixado claro em uma publicação em sua plataforma de mídia social, a Truth Social, suas intenções para a Voz da América: “Mate-a”, ordenou.

Antes disso, ele havia rotulado a mídia estatal como um meio de “propaganda radical” e “anti-Trump”. Disse que a organização tem um viés esquerdista e é crítica demais a seu governo.

Em sua decisão, porém, o juiz Royce Lamberth mandou o governo Trump pisar no freio: “Quaisquer ações tomadas por Lake durante seu alegado período como CEO interina (…), incluindo a redução da força de trabalho, ficam anuladas”. Isto é, todos os demitidos ou licenciados devem ser reintegrados em seus cargos — embora o governo ainda pretenda levar a disputa a um tribunal de recursos.

A Voz da América, segundo seu site, nasceu com a atribuição histórica e legal (estabelecida por sua Carta Constitutiva de 1976 e pela Lei de Radiodifusão Internacional dos EUA de 1994) de fornecer notícias precisas, objetivas e abrangentes que representem “todo o espectro da opinião política americana”. Estabeleceu uma “barreira” legal visa impedir que qualquer governo utilize a emissora como ferramenta de propaganda.

De acordo com a EBSCO, uma provedora de bancos de dados para pesquisas, “a Voz da América e emissoras internacionais semelhantes foram criadas como ferramentas de diplomacia pública e guerra da informação, principalmente para combater a propaganda estrangeira e projetar os interesses nacionais no exterior por meio do ‘poder brando’ das notícias e da cultura”.

Os jornalistas-dirigentes da Voz da América estabeleceram, desde logo, que a primeira coisa que um meio de comunicação precisa fazer para ser eficiente no cumprimento de sua missão é garantir, perante o público-alvo, sua credibilidade — não passageira, mas de longo prazo.

Por isso, adotaram a “estratégia da verdade”. Chegaram à conclusão de que, tal como operava a BBC World Service, do Reino Unido, a melhor maneira de adquirir credibilidade é dizer a verdade, mesmo que uma notícia ou outra fosse falsa.

A decisão do juiz Lamberth é uma vitória para a Voz da América e afiliadas, que perderam várias ações anteriores contra o governo Trump.


← Voltar para as notícias