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Jornadas 6 x 1, 5 x 2 ou 6-7

Reflexões sobre a Mudança de Jornada de Trabalho

Antonio Carlos Aguiar

26 de fevereiro de 2026, 11h18

Atualmente, um dos assuntos mais debatidos é a substituição da jornada 6 x 1 pela 5 x 2, uma mudança imposta por lei que também implica a redução da carga horária semanal de 44 para 40 horas.

Essa discussão gera perguntas diretas e frequentemente polarizadas, como:

– Isso é positivo ou negativo? É uma mudança significativa ou não? Quais são as vantagens e desvantagens?

Para abordar essas questões complexas, podemos recorrer a um antigo conto chinês que sugere uma resposta simples: talvez.

O enredo do conto é o seguinte:

Um fazendeiro chinês teve seu cavalo que fugiu, e os vizinhos foram consolá-lo, lamentando a perda. O fazendeiro respondeu: talvez. No dia seguinte, o cavalo retornou, trazendo sete outros. Os vizinhos celebraram e disseram: Que sorte! O fazendeiro, novamente, respondeu: talvez.

Após algum tempo, o filho do fazendeiro caiu enquanto tentava domar um dos novos cavalos e quebrou a perna. Os vizinhos lamentaram, e ele, uma vez mais, respondeu: talvez. No dia seguinte, oficiais do exército vieram para recrutar o filho, mas o deixaram por estar machucado. Os vizinhos, agora alegres, comentaram: Que ótimo! E ele, novamente, disse: talvez.

Essas perguntas simplistas pouco contribuem para o debate. Elas refletem uma mentalidade ultrapassada e se baseiam em argumentos superficiais. Para entender a complexidade do tema, precisamos de perguntas mais estruturadas que considerem o contexto e as múltiplas perspectivas.

Estamos no século 21, e ignorar essa realidade é um erro. A abordagem binária de "certo ou errado" pode levar a respostas simplificadas, como a expressão 6-7, que se tornou um meme global entre os jovens e foi nomeada “Palavra do Ano” pelo site Dictionary.com.

Essa gíria ganhou popularidade especialmente após ser usada em montagens de basquete, especialmente em relação a LaMelo Ball, jogador da NBA que mede 6 pés e 7 polegadas (cerca de 2,01 metros). A associação entre a altura do jogador e a frase se espalhou em milhares de vídeos.

Carolina Fortes, residente no exterior, destacou que esse fenômeno surgiu da repetição do trecho musical e da brincadeira em torno da altura do atleta. Com isso, os jovens começaram a usar '6-7' em diversos contextos, muitas vezes sem sentido:

‘Que horas são? 6-7.

Quanto deu? 6-7.

O que você está fazendo? 6-7.’

Dessa forma, a gíria tornou-se uma resposta automática ou uma piada interna entre adolescentes, sem um significado oculto ou código secreto; apenas uma brincadeira que viralizou.

Portanto, é crucial evitar respostas simplistas às questões sobre a mudança de jornada de trabalho.

Devemos analisar a situação de forma holística e não em partes isoladas. A mentalidade de que um lado deve estar certo enquanto o outro está errado gera exclusões e pode alimentar teorias da conspiração ou fake news.

Esse tipo de pensamento é perigoso e se assemelha a um cenário distópico, onde a verdade é manipulada e as vozes dissidentes silenciadas.

É necessário refletir se essa é realmente a abordagem correta. As análises sobre a redução de jornada devem levar em consideração múltiplas perspectivas, como a posição de micro e pequenas empresas (MPEs), que representam a grande maioria dos negócios e são fundamentais para a economia.

Um estudo do Ipea sugere que a redução da jornada de trabalho impactaria os custos de forma semelhante a aumentos históricos do salário mínimo, mostrando que o mercado de trabalho poderia absorver essa mudança.

Por outro lado, Ivo Dall’Acqua Jr. argumenta que uma redução abrupta da jornada de trabalho poderia elevar o custo da hora trabalhada em 22%, o que representaria um desafio severo para as MPEs, que já operam com margens apertadas.

Alexandre Schwartsman complementa que ignorar os custos envolvidos apenas prejudica a qualidade das decisões políticas.

Assim, a discussão sobre a jornada de trabalho não deve ser pautada por uma busca por uma única verdade, mas sim pela compreensão de que a realidade é multifacetada. É essencial estar aberto a diferentes perspectivas e reconhecer que contradições podem coexistir.

Estamos diante de um momento que requer um trabalho conjunto e complexo, onde as soluções devem ser discutidas de maneira abrangente e com a participação de todos os envolvidos. A modernidade exige que tratemos dessas questões com responsabilidade e inovação, sempre visando o bem-estar de todos os trabalhadores.

Antonio Carlos Aguiar

é sócio do Peixoto & Cury Advogados, mestre e doutor em Direito do Trabalho, e desenvolvedor de jornadas no ecossistema trabalhista.


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