Inspirada por Steve Biko, chegarei ao momento de dizer escrevo o que quero
Mestre em filosofia política
Formada pela Unifesp, atua como coordenadora da coleção de livros Feminismos Plurais.
Reflexão sobre o tempo atual
Escrever e refletir sobre nosso tempo requer coragem para não se deixar levar pela vaidade ou pelas expectativas alheias.
Converso frequentemente com colegas sobre a tendência a buscar a segurança em opiniões que garantam aplausos, evitando desconfortos. Muitas vezes, é necessário seguir certos protocolos para manter os empregos e evitar represálias. Com o crescimento das redes sociais, essa pressão aumentou; há a necessidade de comentar tudo, gerar engajamento e conquistar seguidores.
Nesse cenário, o ódio se tornou um combustível poderoso, com ataques e deboches disfarçados de debates intelectuais e políticos.
A partir de uma perspectiva crítica, escrevo ciente de que estou imersa nessas dinâmicas. Já fui a pessoa que sentia a necessidade de se manifestar diariamente, acreditando na importância de disputar narrativas, especialmente em um tempo em que as vozes de pessoas negras eram pouco ouvidas.
Enfrentamos desafios, abrimos caminhos e provocamos mudanças, especialmente no mercado editorial.
Com o tempo, muitos que lutaram por essas causas acabaram cooptados. Plataformas digitais começaram a restringir o engajamento orgânico, forçando a promoção paga, e as vozes hegemônicas dominaram o debate que antes era vibrante. O resultado foi uma repetição das narrativas dos que detêm o poder.
As conversas se tornaram superficiais e carregadas de um radicalismo narcisista. Poucos ainda têm a coragem de desafiar o consenso, não por interesses políticos, mas por um compromisso genuíno com a mudança. Muitos estão mais preocupados com cargos futuros do que com a verdade.
Recentemente, durante uma formação para mulheres do projeto Promotoras Legais Populares, ao lado de Amelinha Teles, uma referência no feminismo brasileiro, ela provocou: "As pessoas se autodenominam anticapitalistas, antirracistas, feministas, mas é um formalismo. O que realmente estão construindo para praticar isso?"
Essa reflexão ressoa com o que a intelectual Toni Cade Bambara disse: "a boca não vence a guerra". Muitas vozes falam apenas para si ou para um pequeno grupo, sem se abrir para um debate verdadeiro.
Após sofrer ataques por minhas opiniões, hoje opto por ser seletiva nas minhas manifestações. Posto menos e concentro minha energia no que realmente importa, sem me submeter à pressão de quem acredita ter autoridade sobre o que devo dizer.
A leitura de Steve Biko tem sido inspiradora. Em breve, certamente direi: escrevo o que quero.
"Escrevo o que Eu Quero", coletânea do ativista sul-africano Steve Biko (1946-1977), publicada pela editora Veneta, reúne textos e entrevistas do líder negro que foi assassinado pelo regime do apartheid aos 30 anos.
Biko via a consciência negra como uma estratégia de libertação, um convite para que as pessoas negras deixassem de se ver pelos olhos do colonizador.
Ele destacou que "a arma mais potente nas mãos do opressor é a mente do oprimido", criticando tanto os nacionalistas brancos quanto os progressistas que ofereciam alianças enganosas.
Para fortalecer a consciência negra, Biko defendia a necessidade de traçar caminhos para escapar da prisão mental imposta pelo racismo, buscando incessantemente a autodeterminação.
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