Incrementando a inovação tecnológica acionada pela ciência
A evolução da inovação tecnológica impulsionada pela ciência
Ricardo Galvão
Uma crítica recorrente à academia, especialmente entre congressistas, é a de que as universidades atuam como "torres de marfim", com escassa interação com o setor produtivo. Críticos alegam que os pesquisadores se dedicam a seus próprios interesses, sem considerar a aplicação de suas descobertas para o avanço tecnológico e o benefício da sociedade. Contudo, dados recentes mostram que essa visão ultrapassada já não se sustenta no Brasil.
A tendência de reverter esse cenário é recente e foi impulsionada por ações do governo, como a Lei do Bem (Lei nº 11.196/2005), que diminuiu o risco financeiro para empresas ao possibilitar deduções fiscais em pesquisa e desenvolvimento, e o Novo Marco Legal de Ciência e Tecnologia (Lei nº 13.243/2016).
Além disso, iniciativas significativas, como a criação da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) em 2013, fruto de uma colaboração entre o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e o Ministério da Educação, e o expressivo investimento da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) na inovação empresarial, foram cruciais. A inovação e a reindustrialização em novas bases tecnológicas são partes fundamentais da nova Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (Encti), que será apresentada pelo presidente Lula no início do ano. O objetivo principal da estratégia é “indicar caminhos para transformar o conhecimento em tecnologias a serviço da sociedade e a inovação em instrumento de justiça social, criando um Brasil justo, desenvolvido e soberano”.
Um indicador relevante da capacidade de um país em aproveitar o conhecimento para promover o “avanço tecnológico soberano acionado pela ciência” é o número de artigos científicos publicados em colaboração entre os setores acadêmico e produtivo.
Em um artigo recente no blog da London School of Economics and Political Science, o professor Carlos Brito Cruz, ex-reitor da Unicamp e ex-diretor científico da Fapesp, apresenta dados surpreendentes sobre o crescimento de autores de artigos científicos em países de baixa e média renda (low-and middle-income countries - LMIC) em comparação com países de alta renda (high-income countries - HIC).
Entre 1994 e 2024, a proporção de artigos científicos catalogados na base Scopus da Elsevier com autores de países LMIC aumentou de 13% para 56%. Isso indica que essas nações reconheceram a importância da pesquisa científica para seu desenvolvimento sustentável no contexto da Economia do Conhecimento.
No artigo, Brito Cruz discute a colaboração entre academia e o setor produtivo não acadêmico na criação de inovações baseadas em conhecimento científico. Nos países LMIC, apenas 2% dos artigos têm autores de empresas e coautores da academia, enquanto nos países HIC esse número sobe para 3,6%, o que sugere um maior empenho dessas nações em transformar conhecimento científico em inovação tecnológica.
Entretanto, o Brasil se destaca na colaboração de instituições de pesquisa com a indústria. Três países LMIC, Brasil, China e Turquia, têm mais de 70% dos artigos publicados pela indústria com autores de instituições de pesquisa, o maior percentual do mundo. O sucesso brasileiro é especialmente notável em setores como aeroespacial, agronegócio e energia, onde a sinergia entre universidades e empresas é evidente.
Espera-se que essa tendência se consolide com a Encti, promovendo avanços significativos na inovação tecnológica, garantindo um domínio soberano do conhecimento estratégico. O Brasil, embora seja o 13º país na produção de artigos científicos, ocupa atualmente a 52ª posição em inovação tecnológica. A Encti visa ampliar e fortalecer a interação entre instituições de ciência, tecnologia e inovação (ICTs) e o setor produtivo não acadêmico para alcançar esse objetivo.
Ricardo Galvão
é cientista, pesquisador e deputado federal.
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