Herói do Brasil no campo de batalha e ícone do Exército, general Heleno cumpre prisão domiciliar
General Heleno Cumpre Prisão Domiciliar
Por Luis Miguel Vieliczko Kawaguti
A prisão domiciliar imposta ao general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, aos 78 anos, representa um momento crítico na carreira de um dos oficiais mais proeminentes do Exército brasileiro nas últimas décadas.
O militar, que já ocupou os mais altos postos na hierarquia militar, liderou a maior operação militar brasileira no exterior desde a Segunda Guerra Mundial, enfrentou pressões dos Estados Unidos e comandou a defesa da Amazônia. Agora, ele se vê confinado em casa após ser condenado por sua suposta participação na tentativa de golpe de Estado em 2022.
Na segunda-feira (22), o ministro Alexandre de Moraes concedeu a prisão domiciliar após um laudo médico da Polícia Federal confirmar o diagnóstico de demência em estágio inicial. Esse laudo foi crucial para a análise do pedido da defesa.
Antes de ser réu, Heleno construiu uma sólida reputação nas Forças Armadas. Mesmo dentro do establishment jurídico, houve hesitação em aplicar a ele penas tão severas quanto as impostas a outros aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Heleno fez história no Exército, sendo o segundo militar após João Batista Figueiredo a receber a medalha Marechal Hermes por três vezes, destacando-se nos principais cursos de formação do Exército, incluindo a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN).
Nascido em Curitiba em 1947, ingressou no Colégio Militar do Rio de Janeiro e se formou na AMAN em 1969 como o primeiro da turma. Sua trajetória acadêmica de excelência garantiu a ele funções relevantes ao longo da carreira, incluindo a atuação como instrutor na AMAN e a realização de cursos especializados.
A fama de Heleno cresceu quando assumiu a comunicação social do Exército e, entre 2004 e 2005, comandou as forças da ONU no Haiti. Durante esse período, sua habilidade em liderar tropas e sua abordagem preferencial pela negociação em contextos de conflito ganharam destaque, embora ele também tenha utilizado força militar para eliminar líderes rebeldes.
Um dos eventos mais notáveis durante sua missão no Haiti ocorreu em julho de 2005, quando uma operação militar eliminou o líder guerrilheiro Dred Wilme. Apesar do sucesso militar, a operação gerou controvérsias sobre possíveis mortes de civis, o que levou Heleno a se defender em audiências na Câmara dos Deputados.
Heleno também teve um papel significativo na desmobilização de ex-militares haitianos que formaram um exército rebelde. Sua atuação no Haiti solidificou sua imagem dentro do Exército, onde passou a ser visto como um herói informal.
Entre 2007 e 2009, ele comandou o Comando Militar da Amazônia, onde se envolveu em debates sobre a demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Suas críticas ao governo federal em relação à demarcação geraram tensões com o então presidente Lula, levando a um deslocamento para funções menos operacionais, que foram interpretadas como uma punição.
Heleno foi cotado para a liderança do Exército e, em 2018, chegou a ser considerado para a vice-presidência na chapa de Jair Bolsonaro, tornando-se, posteriormente, ministro do Gabinete de Segurança Institucional.
O capítulo mais sombrio de sua carreira começou com as investigações sobre a tentativa de golpe após as eleições de 2022. A Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República alegaram que ele fez parte de um "núcleo estratégico" para desacreditar o sistema eleitoral e impedir a posse do presidente eleito. Apesar das acusações, a defesa de Heleno argumentou que não houve ações concretas para romper a ordem democrática.
O caso gerou divisões dentro do Exército, com alguns militares vendo o processo como injusto, alegando falhas no devido processo legal e falta de provas.
A prisão de Heleno marca um desfecho controverso na trajetória de um oficial que, por décadas, foi um símbolo de liderança e estratégia nas Forças Armadas brasileiras.
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