Guerra no Oriente Médio pode impactar bolso do consumidor, dizem analistas
Conflito no Oriente Médio pode afetar a inflação no Brasil, afirmam especialistas
A tensão entre os Estados Unidos, Israel e o Irã pode gerar impactos significativos na inflação brasileira, de acordo com a economista-chefe da Lifetime Gestora de Recursos, Marcela Kawauti.
Analistas consultados pelo CNN Money ressaltam que o conflito altera diretamente o fluxo de commodities cruciais para o Brasil, o que pode resultar em efeitos inflacionários ao longo de toda a cadeia produtiva.
Um exemplo é o petróleo, que é fundamental para a produção de combustíveis e, consequentemente, para a indústria e o transporte. Na terça-feira (3), o barril do Brent, referência internacional, encerrou o dia com alta de 4%, alcançando US$ 81.
O preço do petróleo em torno de US$ 80 pode impactar a inflação brasileira em 0,25 ponto percentual, conforme relatório da Tendências Consultoria.
A seguir, confira três aspectos sobre como o conflito no Oriente Médio pode afetar o consumidor.
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Num primeiro momento, Kawauti destaca a questão dos fertilizantes. Embora a relação comercial do Brasil com o Irã não seja das mais expressivas, com o país ocupando a 31ª posição em exportações e a 82ª em importações, segundo dados do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), o principal produto iraniano no mercado brasileiro é um insumo essencial para o agronegócio.
Em 2025, o Brasil importou US$ 66,8 milhões em fertilizantes do Irã, representando apenas 0,4% do total de "adubos ou fertilizantes químicos" adquiridos no último ano. Contudo, o impacto na economia deve ser monitorado, conforme os especialistas.
Os fertilizantes são o segundo produto mais importado pelo Brasil, e o fluxo da região influencia significativamente a produção e a logística global, afetando, assim, os preços do insumo.
A economista aponta que um aumento nos preços internacionais dos fertilizantes teria repercussões relevantes na agropecuária nacional, que depende fortemente dessas importações. O encarecimento dos fertilizantes poderia elevar os custos de produção no campo, refletindo nos preços de alimentos, tanto in natura quanto industrializados.
Além dos fertilizantes, cerca de 20% do petróleo comercializado mundialmente passa pela região em conflito.
A situação levou à diminuição do tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz, uma rota crucial para o transporte global de petróleo.
"A interrupção dessa via gera uma desorganização nas cadeias produtivas globais", afirma Otávio Oliveira, gerente da tesouraria do Daycoval.
Ele ressalta que o petróleo é um componente chave em qualquer medição de inflação, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. Existe a possibilidade de que esse conflito se prolongue, afetando os índices inflacionários globalmente.
Oliveira ainda menciona que, em um cenário de corte da Selic, o Banco Central pode adotar uma postura mais cautelosa, reduzindo a taxa em 25 pontos base ao invés de 50.
Se a situação se agravar e os preços do petróleo subirem ainda mais, Andréa Angelo, estrategista de inflação da Warren Investimentos, alerta que os preços dos combustíveis poderão ser reajustados, impactando diretamente o consumidor brasileiro.
"A gasolina pesa cerca de 5% no bolso do consumidor, o que é significativo", afirma, também destacando o efeito indireto que a alta da gasolina gera no mercado.
Quando os preços da gasolina aumentam, é provável que outros combustíveis, como o etanol, também sejam afetados. "Esse repasse indireto de custos é inevitável, e o diesel também pode refletir parte desse conflito nos preços", completa.
Amance Boutin, gerente de desenvolvimento de negócios da Argus, menciona que o Brasil possui estoques de diesel que funcionam como um "colchão de segurança" em relação aos preços.
Ainda que os preços internacionais influenciem as compras do Brasil, o país tem estoque suficiente para lidar com um eventual choque, segundo Boutin.
Entretanto, se a guerra se intensificar e os preços dos combustíveis forem impactados pela alta do petróleo, a contaminação da cadeia produtiva não se limitará apenas a esses itens.
Contaminação da cadeia produtiva
O petróleo é fundamental para a produção de combustíveis, sendo essencial também para a indústria e o transporte.
"Com o reajuste do diesel, os preços do frete também aumentarão, o que provavelmente resultará em preços mais altos para os alimentos", observa Andréa Angelo, destacando que o impacto do combustível na inflação é indireto, mas afeta várias cadeias produtivas.
"Um conflito, especialmente em relação aos preços dos combustíveis, tem um impacto significativo na inflação brasileira", conclui.
Combustíveis e fertilizantes são os principais produtos importados pelo Brasil, e a alta desses insumos pressiona os setores produtivos, transferindo essa elevação de preços para os consumidores.
"Acreditamos que o efeito total, considerando gasolina, diesel e energia térmica, em um cenário desfavorável para a parte hídrica, pode representar um impacto de 7% a 8% na cesta de consumo", finaliza a estrategista de inflação da Warren.
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