Governo Lula celebra com cautela a queda do tarifaço de Trump e turbina aposta na diplomacia comercial
Governo Lula comemora com cautela a redução das tarifas de Trump e intensifica a diplomacia comercial
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) concluiu sua viagem à Coreia do Sul e à Índia nesta terça-feira, 24 de fevereiro de 2026.
As visitas, iniciadas na semana anterior, foram influenciadas por um evento distante: a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos que revogou o chamado "tarifaço" imposto pelo ex-presidente Donald Trump sobre as exportações de vários países, incluindo o Brasil.
Apesar da eliminação parcial das tarifas, a reação do governo brasileiro tem sido cautelosa, especialmente após Trump anunciar novas tarifas de 15% recentemente. Autoridades de diferentes escalões têm evitado euforia, mesmo com estudos indicando que o Brasil é um dos países mais beneficiados pela decisão.
Lula destacou em entrevista coletiva na Índia que a decisão judicial contraria a posição de Trump, mas enfatizou a importância de discutir a relação entre Brasil e Estados Unidos.
A queda das tarifas ocorreu em um momento que ilustra a resposta brasileira à política comercial de Trump. Lula e sua equipe estavam na Ásia para ampliar mercados e mitigar o impacto da redução das exportações brasileiras para os EUA.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que, apesar de uma queda de 6,6% nas exportações para os Estados Unidos entre 2024 e 2025, as exportações totais do Brasil aumentaram em 3%.
Na Índia, primeira parada da missão, as exportações brasileiras cresceram 30%, impulsionadas pela alta nas vendas de petróleo.
Quase um ano após a imposição das tarifas, especialistas analisam os impactos do tarifaço na economia brasileira. Estudos da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (AMCHAM) e conversas com especialistas revelam que o tarifaço aprofundou o déficit comercial entre Brasil e Estados Unidos, colocando em risco empresas e empregos.
Em 2025, o déficit na balança comercial com os EUA aumentou drasticamente, alcançando US$ 7,5 bilhões, um salto de 2.500% em relação a 2024. Isso se deve à queda de 6,6% nas exportações brasileiras para os EUA e ao aumento de 11,3% nas importações.
Os produtos mais afetados incluem semi-acabados de ferro ou aço, equipamentos de engenharia civil e celulose. A participação dos EUA nas exportações brasileiras caiu de 11,9% em 2024 para 10,6% em 2025, embora ainda sejam o segundo maior importador, atrás da China.
Frederico Lamego, superintendente de Relações Internacionais da Confederação Nacional da Indústria (CNI), afirma que o tarifaço impactou severamente alguns setores, como cerâmica e máquinas, levando empresas a abrir fábricas nos EUA.
Por outro lado, a necessidade de diversificar mercados pode ser vista como um efeito positivo do tarifaço. Especialistas destacam que, enquanto as exportações para os EUA diminuíram, as vendas para a China e outros países aumentaram.
Dados indicam que as exportações brasileiras cresceram de US$ 337 bilhões para US$ 348 bilhões entre 2024 e 2025. O crescimento nas vendas para a China, Argentina, Índia, Reino Unido e Paquistão foi significativo.
O governo brasileiro também abriu 500 novos mercados desde 2023, refletindo uma estratégia pragmática para enfrentar os desafios impostos pelo tarifaço. Recentemente, o Brasil finalizou acordos comerciais com a União Europeia e a EFTA, além de reativar negociações com o Canadá.
A revogação parcial das tarifas de Trump está sendo avaliada pela equipe de Lula e pode facilitar a agenda da reunião entre Lula e Trump, prevista para 16 de março, embora a data ainda não tenha sido confirmada.
Essa reunião será a terceira entre os líderes, que tiveram uma relação conturbada, especialmente após a imposição de tarifas adicionais em julho de 2025. Desde então, houve um distensionamento nas relações, com encontros e chamadas regulares entre eles.
Um diplomata brasileiro afirmou que a reunião busca "resolver" a situação dos produtos brasileiros ainda afetados pelas tarifas. Apesar da retirada gradual de tarifas em alguns setores, o de maquinários ainda enfrenta desafios.
Com a pauta menos tensa, o governo Lula pretende focar a reunião em temas prioritários como combate ao crime organizado e cooperação na exploração de minerais críticos.
← Voltar para as notícias