gabinete do ódio GOVERNO BOLSONARO SOB UMA ÓTICA PSICOSSOCIAL

GOVERNO BOLSONARO SOB UMA ÓTICA PSICOSSOCIAL

Revista Psicologia Política vol. 23 no. 58 São Paulo 2023
Epub 08-Jul-2024

ANTONIO EUZÉBIOS FILHO
Concepção, coleta de dados, análise de dados, elaboração do manuscrito, revisões críticas de conteúdo intelectual importante, aprovação final do manuscrito. [ORCID](http://orcid.org/0000-0002-5276-3697)

GABRIEL SIQUEIRA
Coleta de dados, análise de dados, elaboração do manuscrito, aprovação final do manuscrito. [ORCID](http://orcid.org/0000-0003-4107-3276)

O chamado “gabinete do ódio” se tornou notório pela propagação de notícias falsas, criadas por assessores e apoiadores do governo de Jair Bolsonaro, que assumiu a presidência do Brasil em 2018. Este estudo busca evidenciar, sob uma perspectiva psicossocial, as modalidades discursivas utilizadas pelo “gabinete do ódio” para moldar a imagem dos inimigos designados pelo governo, como os considerados “comunistas” e defensores dos direitos humanos. A análise sugere que os ataques direcionados aos opositores políticos do governo têm como duplo objetivo valorizar a imagem do presidente e desqualificar a dos adversários. Uma revisão narrativa das publicações nas redes bolsonaristas e em veículos de mídia de grande circulação revela que a desqualificação dos opositores, sustentada por narrativas falsas, tem sido baseada na disseminação de medo e ódio, resultando em ações violentas contra esses grupos. Por fim, este trabalho propõe tarefas psicossociais que podem contribuir para a superação da polarização e para a decodificação das relações de poder associadas a esse fenômeno.

Palavras-chave: Inimigo Político; Polarização; Política; Psicologia Social; Redes Sociais

O “gabinete do ódio”, amplamente divulgado pela mídia, é uma estrutura de comunicação complexa que envolve perfis verdadeiros e falsos nas redes sociais, contando com a participação de membros da administração federal, assessores bem remunerados, militantes e até mesmo dos filhos do presidente, que atualmente ocupam cargos parlamentares. Diversos desdobramentos estão associados a essa rede de comunicação, incluindo a colaboração com empresas de marketing digital e o uso fraudulento de dados pessoais para disseminar mensagens em apoio a políticos alinhados ao bolsonarismo.

Ideologicamente, o grupo é influenciado por Olavo de Carvalho, um autodenominado influenciador digital, que exerceu forte influência sobre o governo federal, especialmente sobre os filhos de Bolsonaro. A chamada “Tese Olavista” argumenta que o que ele nomeava de “comunismo” busca retomar ou perpetuar o poder por meio de uma hegemonia cultural, associando essa ideia ao pensamento de Antonio Gramsci, que se tornou um alvo de desqualificação por extremistas de direita no Brasil.

Na visão de Carvalho, o “comunismo” teria infiltrado instituições educacionais, sociais e culturais, além de organismos internacionais, sendo os defensores dos direitos humanos rotulados como “globalistas”. A estratégia de Carvalho envolvia atacar e desqualificar adversários, prática que se reflete nas ações do “gabinete do ódio”.

O grupo de comunicação, identificado como “gabinete do ódio” pela CPI das fake news, está sob investigação do Supremo Tribunal Federal (STF). A popularização do termo fake news nos últimos anos está ligada a uma variedade de fenômenos que geram desinformação. Com mais de 82% das residências brasileiras conectadas à internet, a manipulação de fake news se mostrou uma estratégia de baixo custo e grande alcance para o “gabinete”.

Este estudo analisa, sob uma ótica psicossocial, as modalidades discursivas utilizadas pelo “gabinete do ódio” para construir a imagem dos inimigos do governo, incluindo comunistas, movimentos LGBTI+, defensores dos direitos humanos e até mesmo membros da direita tradicional, como aqueles pertencentes ao DEM e PSDB.

A análise se fundamenta no pensamento de Ignacio Martín-Baró, que, apesar de seu assassinato em 1989, ainda contribui com reflexões sobre os traumas da guerra civil, polarização política e a construção da imagem do inimigo. O autor defende uma perspectiva dialética que entrelaça subjetividade e objetividade, propondo que a psicologia deve ser utilizada para desideologizar as relações de poder.

Com base nas ideias de Martín-Baró, buscamos entender as modalidades discursivas do “gabinete do ódio”, identificando características do estilo de governar de Bolsonaro e seus impactos na atualidade. A análise inclui exemplos práticos de como o governo e seus apoiadores atacam e desqualificam adversários.

Realizamos uma revisão narrativa de publicações nas redes sociais associadas à rede bolsonarista, visando responder à pergunta sobre as modalidades discursivas utilizadas pelo “gabinete do ódio”. As publicações analisadas foram selecionadas com base em seu engajamento significativo e sua origem em canais associados ao “gabinete do ódio”.

Doze publicações atenderam aos critérios estabelecidos, sendo divulgadas em plataformas como Facebook, WhatsApp, Twitter e Instagram, com interações variando de 10.000 a mais de 400.000. Na seção seguinte, apresentamos as publicações organizadas em modalidades discursivas, resultantes de um processo teórico-interpretativo.

Utilizando a técnica de análise de conteúdo de dados qualitativos, identificamos três modalidades discursivas emergentes, que refletem as interdependências entre os objetivos da pesquisa e as teorias referenciadas. A descrição de cada modalidade será apresentada a seguir.


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